ENCICLOPÉDIA ARCADÉIA

A História como fonte de inspiração para a ficção

Por Anderson Farias, o autor.

“Copiar de uma só fonte é plágio; copiar de muitas é pesquisa.”

Você já deve ter lido ou ouvido essa frase por aí, ainda mais quando o assunto criação de uma estória está na área. E onde podemos encontrar uma fonte mais vasta de inspiração senão numa biblioteca? Só o mundo da vida. Contudo, nem todo mundo presta atenção na vida ou tem uma vida cheia de aventuras para puxar da vivência qualquer coisa que seja útil na hora de contar uma estória. Esse foi e tem sido o meu caso. Acontece que o escritor versado em história tem mais facilidade na construção de tramas e personagens ricos do que aquele que tem interesse reduzido ao presente. Essa é a minha opinião e eu a defendo até o fim. Podemos tirar uma conclusão interessante a partir dessa premissa: o fato de lermos melhora o nosso vocabulário, enriquece a nossa escrita, ajuda com problemas que os não-leitores aventureiros a escritores encontram…  et outras explicações que não preciso listar. É certo que não quero dizer com isso que graduados em História estão quilômetros à frente de nós, reles mortais de outras áreas do conhecimento (embora eu também seja de Humanas). Sabemos que uma terça parte da história é ficção, outra parte é discurso, e a última, realidade. Perceba: não é tão diferente assim da ficção que construímos cotidianamente dentro dos nossos livros desesperados, pois construímos ficção, exercemos o discurso, com finalidade de se aproximar o máximo da realidade. A dialética bate palmas.

Nos últimos tempos, as maiores sagas literárias, as séries televisivas de grande sucesso e os filmes de entretenimento mais bem avaliados pelo público têm tornado evidente o uso da história como uma fonte de inspiração. Você, como público desse espetáculo, talvez tenha notado isso bem antes do que eu. O trajeto entre a Pré-História até a Antiguidade e depois à Era Moderna, desgraças ou glórias da espécie humana e das suas inúmeras civilizações em qualquer tempo passado, encontram representatividade em grandes sucessos do entretenimento contemporâneo. Como produtores de conteúdo para esse ramo, adiantar-se no conhecimento histórico significa aproveitar-se da fórmula que tem dado certo. Logo: o livro de história deveria ser o ponto de partida para um bom escritor de ficção.

Há uns dias eu li um artigo no site do Nano Fregonese (que, aliás, você deveria começar a ler hoje) cujo título lança a seguinte pergunta: “Como encontrar uma história para contar?” Ler esse artigo me fez refletir sobre o trajeto percorrido para a produção do meu livro, O Império da Flor, e as horas, dias e meses de pesquisa para encontrar fenômenos que me ajudassem nessa empreitada. Cada filme assistido, cada livro lido, cada jogo jogado… De repente deparei-me com uma enorme fonte para a produção dessa estória. Contudo, foi nos livros de história, nos artigos pesquisados e nos documentários assistidos que eu encontrei uma fonte tão vasta e segura de ideias que eu não tive capacidade cognitiva de processar e recordar tudo de absoluto! Bloqueios criativos ficaram tão raros que desde então eu nem sei mais como eles acontecem. Perceba a segurança nesta afirmação: a história é mesmo a maior das fontes de inspiração!

É óbvio que a primeira das influências para a escrita d’O Império da Flor não foi um artigo sobre visigodos e sua relação com a queda do Império Romano tardio na Península Ibérica, mas sim um simples jogo de PS2: Final Fantasy XII (uma série pela qual nutro paixão), da Square Enix. Nele tudo me interessou: os detalhes do protagonista Vaan e dos seus amigos, a luta dos rebeldes para restabelecer a Princesa Ashe no trono do Reino de Dalmasca, a disputa envolvendo os Impérios de Archadia e de Rozarria, o imperialismo do primeiro sobre seus vizinhos, a queda do Reino de Nabradia, a morte dos reis mais fracos e as ambições maldosas do Príncipe Vayne Solidor. Alguns nomes e lugares do meu livro foram inspirados no jogo, mas desde o começo superei a fonte-única e abri à estória outros mananciais de inspiração. Então vi nos personagens históricos, contemporâneos entre si ou não, um lugar para pesquisa. O sábio e sortudo Frederico II da Prússia, o Grande, o velho D. Pedro II do Brasil, o Magnânimo, o áspero Otto von Bismarck, o destemido Horácio de Matos, o devoto Antônio Conselheiro, a livre Imperatriz Sissi d’Áustria, a temerosa Catarina II da Rússia, a Grande, o revolucionário Vladimir Lênin, o temível Sultão Saladino, a corajosa Maria Quitéria, o cínico Voltaire, os ingênuos Luís XVI e Maria Antonieta, a visionária Imperatriz Leopoldina, o enigmático Conde de St. Germain, o oculto Hermes Trismegisto, o ambicioso Júlio César, o egocêntrico Napoleão I, o longevo Ramsés II, o Grande, a sanguinária Condessa Isabel Báthory, o sanguinário Calígula, o sádico Nero, o conservador Cardeal de Richelieu, o paciente Ieyasu Tokugawa… Como pode ver, bons personagens históricos estão aí para quem quiser se inspirar neles. Eu pessoalmente utilizei esses e muitos para a concepção dos meus principais.

Além dos personagens da história, outra fonte foram os acontecimentos. Ninguém duvida que bons personagens nada são se uma trama bem articulada não passar em torno deles. E os acontecimentos que mais marcaram cada um dos personagens inspirados podem servir de ajuda na produção dos elementos constitutivos das tramas a serem colocadas na estória. Mas tome cuidado! Isso pode parecer uma reprodução ipsis literis de um livro de história e, portanto, assemelhar-se a uma colcha de retalhos. Você evitará reproduzir esse erro se regras de originalidade forem delimitadas. E elas são determinadas pelas circunstâncias do elemento de inspiração e pelo contexto da obra. J. R. R. Tolkien, por exemplo, detestava que outras pessoas dissessem que seus livros estavam cheios de alegorias (que pode acontecer caso sua estória se vulgarize). O autor odiava isso porque a) ele não queria que seu trabalho literário corresse o risco de ser associado aos traumas sofridos na 1ª Guerra Mundial, na qual ele lutou como sargento, pois isso poderia esvaziá-lo de valor fantástico e criativo; b) seus livros, além de uma produção autêntica, foram uma experiência para a construção de línguas, a sua grande paixão e maior passatempo; c) ele era católico. Portanto, Tolkien evitava transmitir nos contos d’O Senhor dos Anéis e d’O Hobbit qualquer coisa que soasse como exemplos de vida e esperanças para um mundo melhor, acrescentando aos livros um papel muito mais vital e religioso do que ele inicialmente pensara (segundo ele em várias cartas, para esse papel existiam as Escrituras Sagradas). Essas são regras razoáveis, não? Tolkien, desde a primeira linha d’O Hobbit até a última d’O Senhor dos Anéis (suas obras mais populares), fugiu das alegorias, mas isso não significa que o discurso presente em ambas não existia e que as fontes de criação não tenham paralelo na história. A própria fé católica, aliás, foi a grande base para a produção do discurso presente em seus livros sobre a Terra-Média, desde O Silmarillion. O Cerco de Viena de 1529 e a Batalha de Viena de 1683, por seu turno, foram dois fenômenos históricos que o autor inglês talvez tenha utilizado para a escrita do ataque das hordas de Sauron sobre Minas Tirith, o qual podemos ler em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Neste artigo produzido por Eduardo Stark e publicado no site Tolkien Brasil, esse detalhe foi mais bem esmiuçado.

Podemos ver, portanto, que você pode fugir das alegorias e da reprodução ipsis literis de um livro de história mesmo utilizando personagens e fatos reais como inspiração para a produção da sua própria estória. Nas Crônicas de Gelo e Fogo, do americano George R. R. Martin, os nomes Lannister e Stark e a guerra entre eles têm uma clara inspiração nas Casas reais inglesas Lancaster e York e a Guerra das Rosas, respectivamente. Aliás, a própria geografia de Westeros se assemelha à da ilha da Grã-Bretanha, e a Muralha de gelo que separa civilização de barbárie, no Norte, encontra clara inspiração na Muralha de Adriano, construída para a mesma finalidade há quase dois mil anos. Perceba: todo elemento histórico pode ser reaproveitado para a produção de uma estória legal, cativante, verossímil e original. 

Outro elemento que usei e abusei para a escrita do livro foi o da circunstancialidade. Isso significa que um fenômeno passado, dentro da estória, possui importância histórica e reproduz em si circunstâncias com as quais os personagens estão ligados e devem superar, mas sempre respeitando a conjuntura dada. Quero dizer com isso que os personagens podem fazer sua própria história, mas as circunstâncias para isso já estão dadas, logo, o contexto da vida de cada um está ligado ao passado e essa é a regra a qual devem seguir (assim como nós mesmos na vida real). Isso se aproxima da premissa materialista histórica de Karl Marx, a qual eu não me identifico por inteiro, mas considero interessante: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem. Eles não escolhem as circunstâncias da sua escolha, pois elas são encontradas e transmitidas pelo passado” (Marx, in O 18 de Brumário de Luís Bonaparte). Cada situação histórica que os personagens encontram determina as circunstâncias das suas ações, embora eles possam condicionar sua vontade para superá-las. Isso é muito semelhante às regras dos sistemas de magia que alguns autores de fantasia utilizam em seus livros para se aproximar de uma verossimilhança mágica, ou realismo mágico.

Produzir um livro utilizando como fonte de inspiração acontecimentos e personagens históricos não significa limitação ou falta de criatividade; pode ser muito pelo contrário: trata-se de uma atitude que pode ser sábia, à medida que novas ideias venham a surgir, calhando numa estória rica. Todas as formas de expressividade são lícitas quando estão baseadas em estruturas razoáveis e quando se aproximam do belo. A estética é objetiva, e tal objetividade deve ser levada em conta pelos autores na hora de sua produção. A demanda por obras inteligentes e bem sustentadas está alta, e não bastam explicações vazias sobre “o porquê do autor utilizar isso“, pois as perguntas agora são outras: “como o autor chegou a isso e o que ele utilizou para isso?” Conversando com um colega outro dia, falando sobre a série Game of Thrones, chegamos à conclusão de que as filosofias hobbesiana e maquiavélica podem ter sido usadas pelo autor dos livros originais na hora de produzir o discurso dentro da obra, que tem a ver com a condição humana e a amoralidade do príncipe no trato da política.

A história da nossa civilização tem infinitas possibilidades de exploração para quem possui um agudo senso criativo. O processo de pesquisa é demorado, mas dá bons frutos. Ela requer disciplina, pois absolutamente tudo pode ser demasiado interessante, correndo o risco de no final ficarmos com nada. Os mais limitados, como eu, devem ser disciplinados ao dobro, pois é preciso ter uma leitura cautelosa, paciente, demorada, casada com um cuidado cirúrgico na hora de transmitir isso ao papel. Nesse ponto, a leitura criteriosa é basilar. Se quiser ouvir a voz da experiênciaeste artigo do professor Rodrigo Gurgel lhe trará muitas respostas.

Termino este artigo com um ditado de um povo que gosto muito (e que eu criei, rs): “Quando se bebe uma taça de passado, sente-se o gosto do futuro.

Beba, embriague-se com o passado. Isso lhe fará sentir o gosto do futuro.

É premonitório.

Anúncios

Relato de experiência: sobre escrever um calhamaço de 1109 páginas

Eu escrevo livros, por isso sei todo o mal que eles fazem (Leon Tolstói)

Por Anderson Farias, o autor.

Nada ou ninguém (pelo menos não que eu me lembre) aconselha um escritor novato a escrever um livro com 438.000 palavras e 1109 páginas. E quem faz isso talvez esteja cometendo um destes três pecados literários: ingenuidade demais, pretensão demais ou paixão demais. Percebe-se o objeto do pecado: o excesso. Assim como o passar das páginas que se sucedem por mil e cem vezes, tudo pode ser coisa demais. E o que é excesso acaba sendo falta na hora das escolhas dos outros. Então, se você é ou conhece um escritor iniciante que escreve um livro desse tamanho, estas palavras são de alguém com experiência nisso: meu conselho é parar imediatamente o que está fazendo e começar a cortar na carne o que não é estritamente necessário. Não sou editor , então não vou lhe ensinar a fazer isso.

Sério. Não é cult nem gourmet fazer isso se você tem pretensões de ser publicado ou reconhecido pelo seu [árduo] trabalho. Poucos autores alcançaram o sucesso no mercado editorial por essa via excessiva… E se isso acontece, lembre-se de que é uma exceção, jamais uma regra: livros grandes são como o grão de açúcar gordo que a peneira implacável dos editores logo descarta na hora de confeitar o bolo. E não pense que o seu livro será a cereja dele. Talvez você até venha a ser, mas daqui para lá provavelmente estará morto ou decrépito.

Por que digo isso, sendo eu um desses pecadores que escreveu um calhamaço de mais de mil páginas? Porque nesses cinco anos eu tenho pesquisado, estudado e dedicado o que o mercado editorial vem apresentando no meu gênero literário, a fantasia. E por esse ser um gênero ainda difícil, muito exposto, mas pouco representado por uma gama de autores estabelecidos no país, sei que apenas obras com certeza de algum retorno financeiro em médio prazo vêm sendo publicadas. Isso significa que, pelo custo das editoras ser consideravelmente alto para um nicho tão seleto e com razoável demanda, obras difíceis ou demasiadamente complexas são categoricamente recusadas no processo de avaliação editorial… conquanto você seja o novo Tolkien do século XXI ou o George R. R. Martin brasileiro (e, convenhamos, nós dois sabemos que isso é um pouco difícil de acontecer)… sabemos qual é o seu destino se você é um desses indivíduos. Mesmo os dois autores acima sofreram duras penas por escreverem excessivamente.

Tolkien, que trabalhava nas suas estórias desde as trincheiras da 1ª Guerra Mundial, queria, inicialmente, que O Silmarillion e O Senhor dos Anéis fossem unidas num único volume… Os editores que publicaram O Hobbit anos antes só não riram da cara dele porque a estória da aventura de Bilbo já fazia um estrondoso sucesso, produzindo um enorme público e formando uma geração de leitores interessados nos contos em torno da Terra Média. Martin, num destino semelhante ao de Tolkien, foi mais teimoso (e isto lhe custou caro). Na década de 80 ele era um conhecido produtor de Hollywood, mas nem sempre suas ideias arrojadas cabiam no orçamento reservado às produções, o que lhe fazia perder boas oportunidades de emprego. Seus executivos queriam ideias menos arrojadas, mais enxugadas, com menos personagens e menos cenas. O que dava para ser reaproveitado das suas pilhas de manuscritos nem sempre agradavam ao pai da futura Mãe dos Dragões.

Martin colocou em (até agora) cinco volumes de mais de 6000 páginas ao todo o que ele aprendeu com sua insistência. O menor livro das Crônicas de Gelo e Fogo, A Guerra dos Tronos, possui 298.000 palavras, o que é um baita de um calhamaço. Mas lembre-se: você não será o George R. R. Martin Brasileiro, tampouco o J. R. R. Tolkien do século XXI (desculpe repetir isso). Sabe por quê? Porque além de Martin ser Martin e Tolkien ser Tolkien, o primeiro teve ao menos 30 anos de experiência literária, virou um famoso produtor, um cara premiado e cheio de amigos editores; o segundo foi um baita de um filólogo, doutor, conhecedor de inglês antigo e cheio de contatos no mercado editorial (alguns dos quais foram seus colegas de graduação e de profissão). Dois dos maiores escritores de calhamaços da literatura de entretenimento do século XX (embora Martin ainda permaneça vivo, parte das suas obras foi escrita naquele século) que você respeita já eram… pasme… respeitados & reconhecidos. Quem é você, ó ser humano latino-americano sem dinheiro no banco e sem parentes importantes, na fila do provinciano mercado editorial brasileiro?

Você deve estar cheio de motivos para se perguntar o porquê de eu ter escrito um livro desse tamanho, e possivelmente cheio de respostas sobre os meus motivos para escrever este texto remorso, dor e aflição talvez. A verdade é que eu escrevi O Império da Flor, esse livro enorme, porque eu precisava. Eu tinha apenas 16 anos  e não sabia de nada igual ao Jon Snow quando comecei a me interessar pela escrita, e esse livro foi minha primeira (e única) experiência desde então. Acontece que eu, tal qual Martin, sou teimoso. Na verdade, sou brasileiro e não desisto nunca. O que serviu de experiência no começo, foi ganhando forma, complexidade, volume e interesse. Vi na escrita desse livro uma oportunidade para colocar toda a minha imaginação para trabalhar, pois o que mais me frustrava era ler um livro ou assistir a um filme e nada terminar como eu gostaria (desculpa falar, sou exigente mesmo). Só tive pretensões de transformar minhas ideias num livro quando notei que todos os países, todos os personagens, todos os ambientes e todas as histórias que eu conhecia poderiam caber num romance. O mundo literário que eu criei tinha tudo para ser um mundo exclusivamente meu chupa Napoleão. Somada à necessidade de ocupar minha mente com algo, seja pela raridade dos amigos ou das aventuras na vida concreta, decidi por viver pela criação. A experiência ganhou contornos de necessidade, como faz um vício cáustico, e três anos depois (lá em 2014) fiquei frente a frente com o resultado: um esboço com 309.740 palavras e 802 páginas. Mas estava tudo tão ruim, tudo tão fora do lugar, como em qualquer esboço, que meu senso de proporção e meu perfeccionismo visceral exigiram que eu fizesse algo mais bem feito. O resultado surgiu dois anos e meio depois, e… com uma… versão ainda maior… de 438.000 palavras e 1110 páginas. Mas agora estou satisfeito, e se estou é porque tudo está realmente em seu devido lugar até agora.

Contudo, saber como funciona o mercado, qual é a média geral de palavras dos livros que fazem sucesso (você pode consultar esta interessante lista para ter uma ideia), o preço para a impressão por unidade, a diagramação, a revisão e a análise crítica de um livro… tudo isso, quanto mais altos são os valores, mais se diminuem as chances de publicação para um escritor iniciante com uma bíblia dessas debaixo do braço batendo de porta em porta pedindo para que ouçam a palavra de Jeová suas propostas. É proporcional. Ainda há um fator impeditivo: autor novo não tem nenhum leque de oportunidades no mercado editorial. Não sou eu a dizer isso, mas todos os jovens escritores que encontrei pela vida e foram muitos. E a vida tem razão. Não há público em torno do autor novato, não há nome, não há nada, e as editoras precisam gastar enorme quantidade de tempo e recurso para que isso seja construído. Desse modo, livro grande + autor iniciante é uma conta que não dá um resultado satisfatório para os editores.

Mas não quero que a minha experiência de escrever um livro com um tamanho exagerado esteja voltada apenas para questões puramente mercadológicas. Mas uma hora ou outra esse tema aparece. Afinal: se você escreve livros, sua finalidade é ser publicado; se você esculpe ou pinta, sua finalidade é ser exposto numa galeria; se você compõe músicas, sua finalidade é ser ouvido… Toda ação humana procura uma adequação igual ou equivalente a partir de um sentido previamente mensurado. Escrever um livro com tantos personagens, cenas e situações me fez conhecer coisas que eu jamais teria imaginado, pois o processo de pesquisa para ambientações, estudo de arquétipos e de estrutura narrativa, construção de diálogos, exploração dos sentimentos humanos, críticas sociais, etc., aguçou a minha razão… Todo esse conjunto é o que dá um tom formidável à sinfonia. Mas é uma ação solitária e às vezes frustrante. Ver os amigos e conhecidos vivendo sua juventude enquanto se escreve um livro que nunca será publicado pode ser angustiante à primeira vista e é mesmo… Mas é aquele ditado: “quem não tem nada a perder, dá as caras.” Cada detalhe, cada personagem, cada objeto construído, no final das contas, tornam-se parte de quem o escreve (embora isto possa evoluir para uma vaidade e um orgulho bobos, que não permitem críticas e que na maior parte das vezes acabam virando mesquinharia). Livros grandes existem, mas os clássicos têm mais motivos para construí-los. Como não sabemos se um dia seremos clássicos ou não, é melhor produzir livros menores, mais fechados, mas não menos densos, centrados em mensagens e personagens mastigáveis.

Entenda os livros menores como se fossem as pedras da base de uma pirâmide, em cima das quais outras maiores poderão ser assentadas sem se afundar de vez na areia eu não sei como foram construídas as pirâmides, mas você entendeu a metáfora. O que seria de Leon Tolstói e seu Guerra e Paz sem suas menos monumentais obras da vida adulta? O que seria de Charles Dickens e seu David Copperfield se não tivesse se aventurado nos contos menores e com maior probabilidade de sucesso? O que seria de Victor Hugo e seu Os Miseráveis se não tivesse os quarenta anos de experiência com contos, poesias e ensaios? O que seria de J. R. R. Tolkien e seu O Senhor dos Anéis sem o sucesso d’O Hobbit e da demanda criada por ele? O que seria de George R. R. Martin e as Crônicas de Gelo e Fogo se não tivesse ganhado prêmios por livros mais simples no seu passado? A verdade é que nenhum desses autores calhamaçais (com o perdão do neologismo) teria alcançado sucesso no seu tempo sem os livros comuns, normais, menos “monumentais”. Eu sei disso desde que resolvi chamar aquele arquivo de Word de “livro”. Mas a experiência foi fabulosa. Escrevê-lo foi como estar dentro da Abertura 1812, de Tchaikovsky: tudo começa penosamente, no frio do Inverno Russo, e termina com fogos coloridos e uma salva de canhões energeticamente bem orquestrados a um encerramento grandioso, caloroso, glorioso, como a história da grande nação eslava. Não sei se O Império da Flor será meu Magnum opus (se é que serei clássico para ocupar meu tempo pensando nisso) tampouco se mais de dez pessoas terão lido tudo até o fim, mas de uma coisa eu sei: comecei e terminei, recomecei e concluí, e isso me produziu uma satisfação pessoal pouco sentida n’outras coisas que eu tenha concluído desde então. Veni, vidi, vici. Vim, vi e venci, disse Júlio César ao Senado Romano. E eu ousaria acrescentar à ocasião: Vim, vi, vivi e venci. Sou suspeito para falar das consequências disso, mas eu faria tudo de novo, exatamente igual… Meu espírito evoluiu e agora eu sou outro. Produzir esse livro foi comer uma proteína pesada, mas com a qual fortaleci meus músculos para uma nova construção.

Como você percebeu neste artigo, eu sou um daqueles que falam demais. Caio Fernando de Abreu tem uma frase que traduz muito bem isso:

Escrevendo, eu falo pra c#r#lh#, não é?

Que seja. Eu faria tudo de novo. Cada frase, cada palavra, cada ponto. Ponto. .

 

O Eremitério dos Sábios

Por Anderson Farias, o autor.

PARTIRAM OS GRANDES SÁBIOS PARA O EREMITÉRIO. Restaram os ingênuos que não sabiam a simplória diferença do que é e do que nunca será. Faziam confusões das mais grosseiras e agrediam os que tinham um pouquinho de razão. Formaram uma Justiça fraca, mas prepotente, capaz de dizer, ingenuamente, o que era verdade e o que não era; apossaram-se da verdade para seus próprios fins. Segregaram os mais fracos e entronaram os mais fortes, a fim de dizerem quem era o mais sábio entre todos. Quantificaram a força para compará-la à sabedoria, e esqueceram-se desta para possuírem aquela. Agora viviam oprimidos, seja pela força dos mais fortes, seja pelo medo dos mais fracos, e permaneceram assim por muitos anos. Quando os sábios retornaram, viram que os ingênuos se diziam os verdadeiros sábios, e não toleraram a rivalidade dos recém-chegados. Os ingênuos zombaram dos mais sábios e dos seus ensinamentos de justiça e verdade, e passaram a ridicularizá-los com infinda energia. Os mais sábios retornaram para o seu eremitério e lá fundaram o reino da Justiça e da Verdade, no qual nenhum ingênuo poderia acessar. Quando a iminente peste veio, dizimando o reino dos ingênuos, seus sobreviventes clamaram por cuidados no reino daqueles que outrora haviam zombado; foram recebidos com hospitalidade e respeito, apesar das leis ali existentes impedirem o seu acesso. Durante a estadia, os ingênuos não ouviram sequer uma palavra ressoar da boca dos seus hospitaleiros anfitriões. Agora mudos e surdos, e doentes, os ingênuos sentiram que maior doença estava ali, no silêncio profundo dos homens que se diziam sábios. Preferiram partir para o seu reino pestilento, pois lá certamente ouviriam ao menos o cantar dos corvos em regozijo pelo grande banquete humano que se servia nas ruas. Morreram aos poucos, definhando, mas mesmo assim ficaram felizes por ouvirem qualquer coisa, desde o cantar dos corvos até o cantar da Morte, simulada nas mastigações dos vermes que lhes tomavam o corpo todo. Toda a gente morreu feliz por não compreender o silêncio; pois o silêncio era a maior Justiça e a única Verdade. O único sentido do eremitério era de que qualquer palavra jamais poderia ser dita — todas as palavras já estavam na cabeça dos sábios e pairavam sobre eles sem que abrissem a boca para dizê-las. Os ingênuos, extintos do mundo, jamais entenderam o profundo e nobre significado do silêncio: o de conservar a verdade para manter a justiça, por isso gritavam mais alto ao passo em que se aproximavam da morte, mesmo na lenta putrefação da carne. Queriam ouvir qualquer coisa, embora nem mesmo o silêncio tivesse condições de curá-los.

02.05.2014.

“E Arcadênsia domina os céus” – por Tuniol Elbencão

“Quando o inimigo anda, podemos persegui-lo na terra. Quando ele nada, podemos afogá-lo. Quando ele voa, podemos derrubá-lo. Quando ele pode fazer as três coisas, podemos pedir clemência.” (General Jéreme Costabranca)
Por Tuniol Elbancão

A Força Aérea Imperial de Arcadênsia, além de ter sido a maior força desse tipo no mundo, era a única que dispunha de grandes aeronaves mais pesadas do que o ar com cascos blindados e armas de fogo de alto calibre — diferentemente das de Rozenfor. Para entendermos como tecnologia tão aprimorada se desenvolveu num período relativamente jovem da Era Imperial, precisaremos recorrer ao passado, aos primórdios dos primeiros aeróstatos e dos primeiros esboços do que futuramente viriam a constituir as aeronaves de guerra.

Essa tecnologia aérea se desenvolveu em Arcadênsia por volta do início do Segundo Milênio com a construção dos primeiros balões de ar quente. Na busca pelo controle daqueles que viriam a ser os primeiros aeróstatos, adaptações foram feitas até aquilo que conhecemos por dirigível ter sido pensado por Carlo Belgano em 1096.

Seu primeiro voo partiu de Arcafiel e atravessou o Mar Fiel um dia depois. Chegou à costa da Promenóvia no segundo dia, retornando à Arcafiel após uma viagem de mais cinco dias e cinco noites. Embora não tivesse sido uma excursão rápida e segura, Belgano pôde demonstrar com a sua nova máquina que era possível controlar as aeronaves mais leves do que o ar. Ovacionado pelo público e saudado pelo Imperador Baverlano I Dorinsor, o Engenheiro, Carlo Belgano também fora um dos fundadores da Academia do Aeroclube de Arcafiel (mais tarde Imperial Academia do Aeroclube), na qual foram pensados os mais prodigiosos projetos visando desenvolver mais e melhor a autonomia dos aeróstatos.

Somente em 1119 — portanto vinte e três anos após o voo inaugural do dirigível de Belgano — que o aeronauta e inventor João Kalikate realizou o primeiro voo com máquina controlada por hélices movidas a vapor e sustentada por balão de hélio, que segundo ele era “dotada de verdadeira autonomia.” Seu aeróstato era diferente daquele que Carlo Belgano construíra, e o próprio Kalikate não gostava das comparações que costumavam fazer entre ambos. Sua rivalidade com o Aeroclube era visível — e risível —, e debates, xingamentos públicos e constantes ameaças eram comuns nas ruas de Arcafiel entre os seguidores de Belgano, fieis ao Aeroclube, e os seguidores de Kalikate, chamados de “loucos” porque sonhavam que as hélices e os motores leves trariam a tão sonhada autonomia às suas máquinas voadoras e deixariam de lado os balões de gás.

Para mostrar que sua invenção era diferente e mais eficiente, Kalikate transformou uma pequena embarcação em aeróstato de hélio com a propulsão de duas hélices alimentadas pelos motores a vapor originais da própria nau. Finalmente, após muita espera, numa primavera ele decidiu fazer o primeiro experimento. Reuniu toda a imprensa e convidou especialmente o Aeroclube de Arcafiel, o maior do mundo, para que fossem testemunhas da nova dádiva dos céus imperiais. Quando finalmente alçou voo, não causou muito espanto: a altura máxima conseguida pelo invento não ultrapassou os vinte metros. Considerada pelos conservadores membros do Aeroclube como uma invenção fracassada, o nome Kalikate ficou esquecido durante 20 anos: um para cada metro alcançado. Segundo ele, seu invento fora vítima de sabotagem e conspiração.

Em 1140, já idoso, João Kalikate inventou seu último aeróstato para o espanto da imprensa e do Aeroclube: a Mad’ Celestianina, um reinvento da mesma “aeronave”, mas mudada por ele apenas em alguns detalhes. A Mad’ Celestianina era mais leve e menos robusta, possuindo, além das hélices de propulsão, quatro hélices de sustentação colocadas nas laterais do casco. O balão de hélio e o casco foram mantidos, e os remendos causaram risos nos senhores do fechado Aeroclube. Toda a sociedade estava descrente e muito pouco crédito dera ao inventor. O Aeroclube, porém, nunca desconfiara da capacidade de Kalikate e nunca subestimara o inventor, e tinha bastante receio sobre o impacto dos seus inventos. E para o terror desses senhores, na tarde de 5 de Janeiro de 1140, num verão ensolarado, a aeronave Mad’ Celestianina ascendeu e no seu voo inaugural conseguiu alcançar a marca de 219 metros, comandada a todo instante pelo próprio inventor para todas as direções. Os ventos úmidos e quentes não impediram a autonomia da aeronave, que desfilou majestosa frente às mais diversas correntes; e no final, após sobrevoar pelos ares de Arcafiel, a Mad’ Celestianina retornou ao aeródromo e seu inventor foi recebido com pompa de herói. Para o futuro da aviação era apenas o começo de um novo e longo processo, mas para João Kalikate era o fim da vida: morreu de infarto fulminante quando pisou no gramado do aeródromo.

Ao longo dos tempos a invenção de Kalikate foi sendo aprimorada pelas novas gerações de inventores. Em pouco tempo eles criaram aeronaves que se sustentavam no ar com a ajuda de grandes hélices horizontais e verticais. A primeira aeronave que executou voo completo sem a ajuda de balões de hélio foi a Belozúvio, que decolou de Ídelin, nas margens do Sumé Central, e posou em Reidor, distante 552 km, no mesmo dia. Seus inventores eram os até então anônimos irmãos Quindomargo.

A Belozúvio se tornou a primeira de uma série de aeronaves que viriam seguindo o projeto original dos irmãos Quindomargo, que por sua vez se basearam na invenção de Kalikate, que se baseara na invenção de Belgano. Eram caracterizadas pelos cascos semelhantes aos de navios, porém mais leves, e pela sustentação e propulsão por hélices — podemos observar aí que muito do que Kalikate inventara e aprimorara se preservou.

As primeiras unidades eram lentas e bastante pesadas, mas quando o Império passou a construir as suas próprias aeronaves para fins militares, utilizando a Corporação Lunité, muito se aperfeiçoou para que elas se tornassem mais rápidas, leves, resistentes e eficientes. Já no início de 1300 o meio de transporte predominante para longas distâncias passou a ser feito por essas máquinas aéreas; e a cada ano elas enchiam mais e mais os céus imperiais com o seu singular zunido.

Deste modo, o segredo do Império para seguidas vitórias em batalhas decisivas concentrava-se em sua Força Aérea. A cidade de Biel, por exemplo, pôde ser tomada em menos de quatro horas durante a Guerra de Albalamid, depois que todas as suas defesas foram destruídas por duas das maiores aeronaves que o mundo já vira: o Flancour-25 e o Pamanam-35. E Arcadênsia, assim, dominou também os céus.

Extraído do volume de livros Os Contos Verdadeiros de Zafirra, por Tuniol Elbencão.

Do Brasil a Arcadênsia: algumas considerações

Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.

Johann Wolfgang von Goethe

Por Anderson Farias, o autor.
Nenhum escritor está despregado da realidade. Ora, nenhum ser humano vive tão somente nas nuvens, pois antes de sonhar, ele existe num mundo dado (estamos, logo, falando de pessoas vivas e que existem). A realidade é o que condiciona as nossas expectativas sobre o futuro, e por essa qualidade, nada foi tão real quanto o passado, esta eterna fonte para as coisas do presente. Mas por desconhecermos a totalidade do presente, não podemos dizer, como seres sonhadores que somos, que tudo é totalmente realidade. Embora nosso cérebro, um órgão que existe, possua funções cognitivas limitadas pela materialidade, uma partezinha é suposição, metafísica, ideias, construções da mente, loucura… Enfim, o passado determina as nossas condições para viver no e conhecerpresente, embora tenhamos as capacidades limitadas de mudá-lo, e infinitas de supô-lo.

O que quero dizer com o parágrafo acima? Que todo escritor, apesar de sonhar para frente, está com uma parte do corpo preso por trás. Pressionar-se contra essas amarras é o movimento que liberta sua mente e torna a criatividade mais (com o perdão da redundância) criativa. Ele jamais desconsiderará, no entanto, as coisas que existem… A língua, o papel, seus olhos, sua mão, seu cérebro… todas estas coisas têm o seu limite.

ORIGENS

Como um amante da história desde a minha tenra idade, pude conhecer momentos que eu desconhecia, e ao longo desses anos, fui adquirindo uma noção do todo (embora, claro, o todo nunca se completa para uma só mente — ainda não evoluímos para seres omniscientes). Em determinado momento da vida, eu me vi pronto para escrever uma estória utilizando os recursos que já possuía. A história e o passado tornaram-se fontes inesgotáveis para a criatividade. E como o animal humano, só pude criar algo a partir daquilo que já existia. Pois bem, dito essas coisas todas, posso começar a escrever neste post sobre a maior influência para a construção de um novo mundo num livro de fantasia como O Império da Flor: o Brasil.
Obviamente Arcadênsia, esse “Império da Flor”, não é uma alegoria para se contar a história do Brasil via obra de ficção. Apesar das claras semelhanças geomorfológicas, econômicas, sociais e políticas entre o país fictício e o país real no qual nasci, trata-se de um recurso que todo escritor, desde Virgílio (ou até antes) utiliza como inspiração para suas obras. Grandes narrativas necessitam de grandes influências, e as melhores influências estão à vista do escritor; elas se desenrolam perante os seus olhos a partir do presente. E se ele quiser contar uma boa estória do começo, é bom olhar para o passado.

É claro que estou me referindo aqui às narrativas épicas, que necessitam de um arcabouço mínimo para serem desenvolvidas, pois o desenrolar da jornada dos personagens precisa de um lastro histórico dentro do livro no qual está inserido. Não se pode escrever dez livros sobre a jornada épica de João sem que seja contada a origem de João, ao menos nas entrelinhas, para que possamos entender os fins de João. E esse argumento leva a outro, pois, se tratando de narrativas épicas, é preciso entender que estou me referindo ao gênero romance (não estou falando do poema como recurso de narração do épico — que, a nota de curiosidade, eu adoro); é o romance da vida e trajetória de João. Assim sendo, para escrever O Império da Flor, precisei recorrer a uma parte do material produzido pela humanidade, mas sobre a história do meu país. Como estou longe de ser um gênio ou um inventor, segui pelo caminho do possível: comparar o que eu já tinha escrito ao que já tinha sido contado na história e na ficção, e obter os detalhes mais verossímeis em ambas as literaturas; levei a obra, que já estava concluída, ao processo de “verossimilhancização” (com o perdão da extensão do neologismo). Deste modo, construí os parâmetros do possível dentro do livro utilizando uma parte do todo que eu adquiri para escrevê-lo, ou seja, tornei a estória possível, como se estivesse determinada pelos limites da nossa própria história. Lembram-se do “passado determina o presente”? Então… Tendo plena noção do significado disso, limitei os homens e mulheres da estória aos mesmos parâmetros que os nossos.

CONVERSAS COM A HISTÓRIA DO BRASIL

Confesso que mesmo após três anos escrevendo a primeira versão d’O Império da Flor (finalizada em 2014), utilizar a história do Brasil como fonte de inspiração só me pareceu uma boa ideia ao começar a reescrevê-lo, no quarto ano de trabalho. Esse momento de notar sutilezas na estória causou um profundo descompasso entre o começo e o fim do livro. Isso necessitava ou de uma profunda reescrita da obra ou, mais drasticamente, uma nova escrita. Como preferi a última opção, reduzi o livro todo aos primeiros dez capítulos, e a partir destes, reescrevi toda a obra. Não poderia pegar elementos solitários da história do Brasil e configurá-los ao meu bem entender para acrescentá-los ao livro; precisei, antes, configurar todo o livro para que aqueles elementos de inspiração coubessem harmoniosamente.

O café e a cana-de-açúcar como produtos importantes para a economia; o desenvolvimento do comércio por vias rudimentares, mas que deu certo; a explosão das indústrias em algum momento recente; a instabilidade política ocasionada da poluição da esfera pública pela esfera privada; o protagonismo dos militares em tomar decisões-chave para os rumos da política; etc.; são alguns dos elementos que são encontrados tanto na história do Brasil quanto na estória de Arcadênsia. Isso, no entanto, não torna Arcadênsia uma espécie de Brasil, nem tampouco o Brasil pode ser explicado por via dessa ficção… Logo, não se pode chegar à conclusão de que O Império da Flor é na verdade uma alegoria para se entender o Brasil.

A autoridade regional do Coronel, que sustenta outra maior, a do governador, e a autoridade do governador que sustenta outra, a do Presidente, é a identidade política do Brasil entre finais do século XIX até 1930 (estamos falando, claro, dos fenômenos do Coronelismo e da política de governadores). O Intendente, o Administrador de Província e o Imperador, no livro, também sustentam uns aos outros partindo da autoridade mais particular até a mais geral.

Dentre outras coisas, a questão da moralidade embebida numa escatologia religiosa milenar se faz presente tanto na história real e como também na minha ficção, além das consequências claras extraídas a partir disso.

Além das semelhanças sociais e políticas, Brasil e Arcadênsia também possuem similaridades físicas. Em ambos há uma floresta tropical densa, que toma todo o norte dos países. Devido aos perigos que habitam a região e às dificuldades de subsistência, hegemônicas ali, torna a densidade populacional muito baixa. Nos rincões do centro surgem charcos e planícies aluviais, em que impera a cultura da pecuária e do pastoreio sazonal. Apesar de um deserto que se prolonga na costa sul de Arcadênsia, dissociando-se, portanto, do sul frio do Brasil, as porções de terras frias no país fictício começam a surgir apenas no leste, nos topos d’A Cordilheira. No oeste de Arcadênsia, tal qual no sul do Brasil, há uma histórica instabilidade política, que resultou por muitas vezes em longos períodos de secessão. A metrópole de Arcadênsia emerge no leste, tal como no Brasil com o Rio de Janeiro. Ambos os países estão localizados no Hemisfério Sul dos seus respectivos mundos, e estão economicamente ligados à produção de matérias-primas; Arcadênsia, no entanto, exporta aos demais países do globo bens industrializados. A densidade populacional em ambos os países é considerada baixa, e há neles considerável quantidade de água doce e de energéticos. As semelhanças, porém, acabam por aí, pois enquanto Arcadênsia possui um território do tamanho ao da Rússia, o Brasil tem metade disso. Arcadênsia possui mais de mil e quatrocentos anos de história, enquanto o Brasil possui quinhentos. Arcadênsia só viu o estágio antigo da escravidão, sem critério de raça e cor; enquanto o Brasil experimentou a amarga escravidão moderna, cujo critério era principalmente baseado na raça e na cor. Apesar das claras divisões de classes, o arcadensita médio tem uma desenvolvimento humano bastante elevado (o maior do seu mundo); enquanto no Brasil, experimentamos níveis ainda baixos de desenvolvimento humano. Econômica, política, militar e diplomaticamente, Arcadênsia é uma potência hegemônica global; enquanto que o Brasil sempre permaneceu como uma potência regional. Arcadênsia já surgiu como metrópole, ou seja, já possuindo um Estado-nação colonizador; enquanto que o território “Brasil” surgiu como colônia de exploração de um Estado-nação estrangeiro, para constituir-se como Estado-nação somente no século XIX. A partir daí, as diferenças que claramente existem entre um país de ficção e outro real tornam-se menos estruturantes.

ENTRE O NACIONAL E O ESTRANGEIRO

Um romance de fantasia épica é deveras difícil para ser criado sob os parâmetros aqui encontrados no Brasil. A tradição, a cultura, a língua e até as visões de mundo de um inglês do interior levam-no a ler a trilogia d’O Senhor dos Anéis sem estranhamentos, pois ele está lendo uma obra produzida no centro da sua própria cultura. Ler sobre elfos e hobbits para um brasileiro dos rincões do Nordeste, cuja visão de mundo está submergida numa cultura e numa tradição particular à sua própria sociedade e existência, leva a leitura a fins que o próprio autor (nesse caso J. R. R. Tolkien) jamais teria imaginado (isso, no entanto, não torna uma dificuldade por si só). Obviamente Tolkien não escreveu O Senhor dos Anéis para ser lido apenas para o inglês médio, mas os elementos para a criação dessa obra vieram, contudo, da cultura a qual o inglês médio está familiarizado e embebido. Escritor nenhum está despregado da realidade, repito. Para criar coisa B, é preciso que coisa A já exista. B não nasce do nada, embora A seja algo dado. O Brasil é, para minha escrita, algo dado, e o livro é a criação baseada nele.

A fantasia é um subgênero autônomo na literatura de ficção. Mas para acontecer esse movimento de transformação da fantasia num subgênero, precisou-se seguir influências impostas pela cultura na qual ela surgiu: a anglo-saxônica. Digo que a semente da fantasia como subgênero surgiu da escrita de língua inglesa, com narrativas surgidas no mundo e na cultura anglo-saxãs, com visões de mundo praticamente suis generis à sua cultura milenar. Não à toa a influência medieval é ainda hoje tão forte nessas narrativas, pois nesse momento emergia na Europa a cultura e a nação anglo-saxãs (conquista da Britânia pelos anglo-saxões na Alta Idade Média até a luta dos povos normandos contra os mesmos anglo-saxões na Baixa Idade Média). Sairia caro à literatura nacional ter que criar um novo gênero do nada, portanto, um movimento interessante foi reaproveitar a técnica e a estrutura narrativa da fantasia medieval anglo-saxã para calibrá-la à cultura e à história nacionais. Muitos autores brasileiros estão fazendo isso, e esse movimento é bastante interessante.

O barroco talvez tenha sido a mais longa experiência cultural na história brasileira. Ele nos deu alguns elementos interessantes, de contemplação e submissão, de sacralidade e humanidade. Essas dicotomias fizeram do barroco brasileiro, surgido em meados do século XVII por via das missões jesuíticas, um dos primeiros anúncios de uma cultura nacional. Com a chegada do neoclassicismo, no início do século XIX, a perspectiva artística se modificou, e experimentamos novas fronteiras. Além dessa sucessão demorada, vieram outras escolas que pulverizaram o que conhecemos por “arte brasileira”, que há muito deixou de ser homogênea.

Lembro-me de ter ouvido Jorge Amado dizer numa gravação que o escritor, para saber o que está fazendo, precisa considerar o ambiente e a realidade em que ele está situado. Para mim, certamente seria dispendioso ter de escrever num cenário estranho e num ambiente o qual eu desconheço, por isso, os dialetos, os ditados populares, as frutas, as árvores, a geografia, o clima, a estrutura política-social-econômica, os nomes… tudo teria que me soar familiar, seguro, possível; brasileiro. Nesse quesito estou sendo feliz.

O início da minha “jornada anglo-saxônica” é o início da jornada do meu país: agrário, mas também rural; arcaico, mas também moderno; selvagem, mas também civilizado; gigante, mas também disperso; pobre, mas também rico; doente, mas também poderoso. Enquanto a fantasia épica tradicional se concentra numa estrutura medieval e numa narrativa cheia de mitos e lendas, aquela que construí está mais para uma fantasia épica moderna, concentrada numa estrutura oitocentista em que o discurso científico-racional já é predominante, embora conviva com a crendice popular.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ninguém inventa a roda, mas cada um pode utilizá-la para diversos fins: se transportar, moer trigo, fazer uma távola redonda, sair rolando, etc., etc., etc. Honestamente, para mim é bastante importante que o leitor se sinta familiarizado com o livro O Império da Flor. Embora seja uma obra ficcional, não lhe será estranha; familiarizar-se com uma obra de fantasia não medieval será uma experiência literária saborosa, ainda mais se ela estiver temperada com algumas especiarias que só encontramos por aqui. Sou suspeito para falar da interação entre os elementos tradicionais de uma fantasia épica com elementos modernos, uma vez que julgo ter sido feliz nesse tipo de empenho. A França d’Os Miseráveis, de Victor Hugo, é a França que existiu, mas com elementos românticos; a Rússia de Guerra e Paz, de Liev Tolstói, é a Rússia que existiu, mas com elementos épicos históricos; o Condado d’Os Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, é a Inglaterra rural, mas com elementos fantásticos; a Arcadênsia, d’O Império da Flor, de minha autoria, é um país com diversas fontes de inspiração, mas é do Brasil, a minha casa, que tiro os elementos mais fortes para elaborá-la.

Deixo, portanto, as minhas boas-vindas àqueles que se aventurarão nessa obra. A familiaridade, penso, poderá ser algo novo, tendo em vista a hegemonia dos recursos estrangeiros (mas, que ainda assim, são de elaboração da humanidade). Arcadênsia lhe espera, como sempre esperará os bons e velhos aventureiros da fantasia. Sou um aventureiro também, e por isso, decidi escrever uma nova aventura.

Vamos acompanhar os navios que partem de Arcadênsia!

A virtuosa Casa Imperial de Dorinsor – por Idevran Florduart

“A força que é exercida sobre todo homem virtuoso é, e sempre será, a força da história.” (Átero Corteu)
Por Idevran Florduart.

Os Dorinsor sempre souberam que havia algo de diferente entre eles e as outras casas nobres de Arcadênsia, bem como entre eles e as sete Casas Imperiais que os sucederam. Trezentos anos desde a sua chegada ao Trono da Flor, o reinado dos Dorinsor mostrou ser o mais próspero de toda a história deste país, apesar dos infortúnios que naturalmente se desenvolveram em Arcadênsia por motivos outros.

Os mais importantes ancestrais dos Dorinsor surgiram entre 360 e 365 na ilha que hoje possui o mesmo nome, a leste da Península do Pien, no meio do Oceano Adriacélico. Naquele tempo, apenas quatro  famílias viviam na ilha: os Dorinas, os Potanqui, os Jacedote (já extintos) e os Soor. A única família com título nobiliárquico na ilha, os Dorinas (título de Barão), uniram-se aos Soor em 412 d.S., num casamento que até hoje é comemorado ali como O Dia de Dorinsor. Ambas as famílias, criadoras de ovelhas, transformaram a pequena ínsula num próspero porto para comércio de lã e de peixes, fundando em  456, a partir da ação do patriarca Maliseu Dorinas-Soor (3º Barão da Ilha de Iucalí — como a ínsula era conhecida até então), a Guilda da Lã e do Pescado. Comercialmente, Iucalí prosperou.

2376---base_image.1428059105.jpgA Dinastia de Tiel teve fim em 469, quando o Violti Erigor I, o Leal, morreu sem  deixar descendência. Para a escolha de um novo Imperador, todo o Pariato do Império foi convocado, como de costume, mas um nome de família nobre para ocupar o egrégio posto não foi escolhido na ocasião. Os Turlinsor, há 140 longe do Trono da Flor, armaram uma conspiração e conseguiram se eleger poucos meses depois. Utilizando-se dos aliados mais ricos, dentre eles o Barão Maliseu de Dorinas-Soor, Edaas Esplendis de Turlinsor conseguiu comprar dois terços da fidalguia (o necessário para ser consagrado Imperador de Toda a Arcadênsia). Com metais preciosos e toda sorte de bens (como a lã produzida em Iucalí) e com a promessa de dividir o poder, as riquezas e os futuros espólios com os seus eleitores, o agora Imperador Edaas V Turlinsor adotou uma política militaresca e baseada na agressão. Invadiu os vizinhos do norte e do oeste e pilhou Biel em 473 para pagar os fidalgos que o elegeram. Nesse ano, o Barão Maliseu foi agraciado com o título de Marquês, e sua família, Dorinas-Soor, passou a ser reconhecida como Dorinsor (muitos dizem que o Imperador Edaas V tinha um grave problema de dicção, e no momento em que chamou o Barão Maliseu para a oferta do novo título, pronunciou “Dorinsor” em vez de “Dorinas-Soor“; a família, então, adotou a nova pronúncia, considerando a filosofia da Infalibilidade Imperial, ou seja, “o Imperador nunca erra”).

dorinsor
Mapa com a representação moderna e a localização do continente arcadensita e da Ilha de Dorinsor.

Os marqueses de Dorinsor, ao passar o tempo, deram à ilha o seu próprio nome. O pequeno rochedo com pastos e um porto tornou-se a base da cada vez mais rica  e poderosa família, que apesar de distante da costa, ainda conseguia influenciar a política de Arcafiel junto à aliança que tinha com os Turlinsor. Os Dorinsor ajudaram nos esforços de guerra contra a pirataria no Mar Fiel e foram capazes de defender a costa Leste contra duas investidas barvaravianas que viam do Toreno (no biênio 542-543). No Reinado de Duriel IV Turlinsor, os Dorinsor receberam o título de Duques de Dorinsor; mas com a subida da Casa de Runeburgo em 655 (estes, inimigos antigos dos Turlinsor e da fidalguia sulista), a família foi rebaixada ao marquesado novamente.

Hetovil Brilhante de Dorinsor herdou o comando da ilha em 699, sucedendo o pai, Heto Luminoso de Dorinsor. A linhagem dos “Dorinsor Iluminados” começou daí. A26700233294_1afe0076b0_h Casa de Runeburgo caiu em 712 e o Rorzaularme subiram ao Trono da Flor com Luderico I, o Imperador-Sol. Uma nova e duradoura aliança se iniciou entre esses homens de brilho, e os Dorinsor foram exclusivamente beneficiados por sua lealdade e receberam do Imperador o comando da Imperial Armada em 746. Com a morte do monarca dez anos mais tarde e a subida do seu filho, Luderico II, o Egoísta, os Dorinsor levaram um golpe em cheio: o Marquês Vandevil Brilhoso de Dorinsor, Almirante-Mor da Imperial Armada, foi morto com outros trezentos de militares numa ação que ficou conhecida como Genocídio do Auto, em 781, a mando do Imperador. Com o assassínio de boa parte dos nobres militares, Luderico II deu continuidade ao projeto absolutista iniciado pelo pai. Os Dorinsor, expurgados da Corte, retornam à exportação de lã e à pesca.

Portuguese_Carracks_off_a_Rocky_Coast.pngAnos mais tarde, com a subida de Manduel I Badorgal ao poder, em 822, os Dorinsor retornaram a Arcafiel. Dessa vez, na qualidade de Capitães da Armada, colocaram-se à disposição do Imperador Beligerante. Nas três campanhas promovidas por ele contra os países ocidentais do Toreno, dentre eles Lovagkia, os Dorinsor conseguiram vencer todas as batalhas as quais participaram (a mais famosa delas, a Batalha de Dourocanal, nas Ilhas Douvelmas, no Basfaal). Com a reconhecida bravura, o Marquês Vitalício Prateado Dorinsor devolveu à sua família o título de Almirante-Mor da Imperial Armada, em 841. No entanto, a tradição de chefes da Armada acabou entre a família quando ela começou a perder suas riquezas ao longo de todo o nono século. A lã da ilha não era mais um produto essencial e a desenvoltura dos nortistas na pesca em alto-mar extraiu dos Dorinsor suas únicas fontes de riqueza. A nobreza da família, contudo, permaneceu.

Song-of-Roland-e1428274777347-650x362.jpg

Os Dorinsor permaneceram à parte da Corte durante cento e vinte anos, até serem chamados por Constantino I Badorgal, em 995, para pôr fim às Revoltas Ocidentais que já duravam cinco anos, na Costa Oeste. O Reino da Esbrausânia, cujo rei era o próprio Constantino I, foi abolido em 1001, e a cidade de Esbraus perdeu a sua qualidade autônoma. As províncias e os nobres do oeste vingaram-se dois anos depois, quando Aramundo I Badorgal teve o seu reinado deslegitimado um dia após a própria coroação, em 29 de Dezembro de 1003. O peso do remorso da nobreza da Costa Ocidental foi determinante para a queda dos Badorgal do Trono da Flor.

Após dez dias da queda dos Badorgal, a nobreza em reunião escolheu Sor Brunjano, da Casa de Nagarbe-Uramir, senhor de Talonha, no oeste, como Imperador de Toda a Arcadênsia, em 9 de Janeiro de 1004. Sua coroação ocorreu um dia depois. Tornando-se Brunjano I Nagarbe-Uramir, O Polido, o novo Violti sufocou a Revolução Reidorormeana de 1025, embora tivesse concedido autonomia política ao Ducado. Uniu-se à nobreza da Banda Oriental, incluindo os Dorinsor, e reuniu-se com eles para a assinatura do Novo Pacto de União (até hoje vigente). Com a subida de Baverlano I, o Engenheiro,  em 1043, as províncias portuárias de Arcadênsia experimentaram uma rápida modernização, e os Dorinsor, agora se beneficiando de uma nova condição comercial (investindo em companhias de exportação de especiarias do Mar Fiel para o Toreno), puderam, através de sucessivos casamentos entre as famílias ricas do Sul, estabelecer as condições para retornarem a Arcafiel em 1066.0330fc34f092619aac081ac8704abb7b.jpg

Foi nesta data que ocorreu sua primeira chegada à Corte, agora com as riquezas e o prestígio recuperados. Devido ao casamento entre o Príncipe Daurno Samelião de Nagarbe-Uramir, filho mais velho do Imperador Baverlano I, com a Marquesa Zaine Janaira de Dorinsor, filha do Marquês Joverino Lustroso Dorinsor, a família da ilha do sul retorna à Corte. Com a morte do Imperador Baverlano I em maio de 1089, os Dorinsor passaram a ter, pela primeira vez, uma Consorte em Arcafiel, esposa do Imperador de Toda a Arcadênsia. Mas sete anos após a sua subida ao trono, Daurno I Nagarbe-Uramir, o Jovem, faleceu sem deixar herdeiros, em 1096. A Imperatriz Zaine retornou à ilha de Dorinsor, onde morreria viúva e de velhice.

Ruvendor I, o Execrado, irmão de Daurno I e filho de Baverlano I, iniciou já no ano da sua coroação um reinado de terror. Sitiou Arcafiel com a ajuda da Casta Militar e tomou para si o poder absoluto, em 1097. Os militares e a nobreza do Oeste demoraram a reagir, e por isso, apenas em 1109, estourou A Novembrada, o primeiro levante contra Ruvendor I. Em Dezembro se iniciou A Revolução do Verão Vermelho. O Imperador resistiu até 13 de março de 1110, quando ele e toda a sua família foram mortos pela população arcafielense antes mesmo da marcha das tropas dos Senhores da Guerra do Oeste pela capital. Naqueles meses de guerra civil, Evassália, no norte, tornou-se independente, e o Reino de Librasaas, no Surrinsor, repatriou Biel.

le_compromis_des_nobles_en_1566-edouard_de_biefve-mba_lyon-2014As disputas entre as famílias nobres do leste com as do oeste se intensificaram ao longo do mês de março daquele ano, quando os Pariatos se reuniram para eleger um novo Imperador e uma nova casa reinante. Decidiram pelo retorno dos Rorzaularme, exilados na Lovagkia desde a queda de Luderico III em 816. Com o impedimento da Casta Militar pela subida dessa família ao trono (embebida com o remorso pelo Genocídio do Auto), os oficiais militares sugeriram os Dorinsor devido à sua longa tradição de lealdade e honradez aos Imperadores de Arcadênsia. Os Eimagrau, Duques do Reidororme durante séculos, resistiram à proposta e decidiram não reconhecer a consagração do Marquês Atelstano Alvo Dorinsor como Imperador de Toda a Arcadênsia. Então consagrado Violti em 10 de Maio de 1110, tornou-se Atelstano V Dorinsor, o Camponês, e iniciou um reinado de longos 49 anos.

Os três soberanos que sucederam ao primeiro Dorinsor no trono conseguiram desenvolver a economia e estabilizar a política. As primeiras aeronaves autônomas foram inventadas durante o reinado de Manduel II, o Caridoso, com o incentivo deste em criar a Corporação Lunité. Mas o reinado do seu filho, Joover I, manchou para sempre o longínquo prestígio dessa família sulista. Herdando o trono do seu avô, Manduel II, Joover I foi coroado Imperador aos sete anos de idade, em agosto de 1200. Responsável pela pior revolta popular desde o Regicídio do Verão Vermelho, mergulhou o Império em duas guerras: a primeira contra Rozenfor em 1207 e a segunda contra Condória em 1209, ambas perdidas. Nesse meio tempo, a Esbrausânia e o Reidororme se rebelaram contra o Poder Central e proclamaram sua independência em Abril de 1208 e Janeiro de 1209, respectivamente. Ambas as províncias foram retomadas em Janeiro de 1210, mas uma revolta promovida pelos militares fez Arcafiel ser mergulhada numa revolução em Abril do mesmo ano. Momentos antes do assalto ao Palácio de Turlinsor pelos militares, Joover I, o Execrado, suicidou-se aos 17 anos. Apesar do Imperador suicida não ter deixado herdeiros, a numerosa linhagem dos Dorinsor continuou no Trono da Flor com a coroação de Atelstano VI, o Peregrino.

Foram quatro os Imperadores desde o Peregrino até Galduíno I Dorinsor, o Imperador de Arcadênsia de 1381 até os dias atuais. Muito do crescimento do Império nesses quase um século e meio foi devido ao forte senso de promoção ao desenvolvimento econômico enraizado nas tradições da família. Devido à sua admiração pelo mercado, os Dorinsor passaram a ser chamados de “Imperadores Burgueses”, embora tivessem abandonado todos os seus portos, companhias de exportação e navios assim que subiram ao Trono da Flor. Da burguesia os Dorinsor não tiraram nada mais do que alguma simpatia, mesmo a própria ascensão burguesa tivesse dependido, em grande medida, dos esforços dos Imperadores Ilustrados em desenvolver economicamente todo o país.

Dos nove Imperadores Dorinsor até Galduíno I, apenas um não recebeu um cognome que significasse algo altivo, virtuoso, esplendoroso. Os reinados dos Imperadores da Dinastia Dorinsor foram longos e prósperos, e sequer uma guerra foi perdida por eles. As matrizes para a revolta vieram, contudo, da própria disseminação do espírito diplomático, democrático e libertário dessa virtuosa família. Ninguém nunca duvidou até hoje que sem os Dorinsor não haveria Arcadênsia moderna, e sem Arcadênsia moderna não haveria Império. Se a instabilidade dos nossos nobres e dos nossos Imperadores determinasse as nossas condições de vida, continuaríamos presos aos nossos senhores feudais ou aos senhores de escravos, como boa parte das pessoas ao redor do mundo ainda vivem (com exceção, claro, da gente que vive na maioria dos países no Toreno). As condições invejáveis de vida do arcadensita médio são comparáveis às condições de vida do mais poderoso rei do Extremo Ocidente, e o nosso cidadão tem mais regalias civis do que qualquer fidalgo do Extremo Oriente. Seja nos desertos desta banda do mundo ou nas montanhas daquela outra banda, a verdade é una: nunca antes uma só Dinastia ofereceu tanto a um país num curto período de tempo quanto os Dorinsor. Estão sendo quase exatamente trezentos anos de crescimento até o infinito. Que o infinito dure muitos anos.

Texto extraído do Dicionário da História (pp. 306, seção D — edição da revista O Expresso Histórico), lançado e impresso pela FCDF do Fórum Imperial de Trienhoste. Escrito por Idevran Florduart em 11/06/1408.

Os Arcadeus e os Arcafeus – por Idevran Florduart

Um artigo sobre a história desses dois povos.

“A história de um povo vivo é contada por aqueles que querem torná-lo maldito ou divino. A história de um povo morto é contada por aqueles que querem que sintamos pena ou saudade.” (Magal Cervos)
Por Idevran Florduart.

Nem todo arcadeu é arcafeu, mas todo arcafeu é arcadeu.” Nós aprendemos a decorar essa frase na escola, quando somos apresentados às primeiras aulas de História. Nossos professores, no entanto, geralmente não nos dizem muito sobre as diferenças enormes que existem entre esses dois grupos que, marcados por incontáveis êxodos, guerras, genocídios e expurgos, aprenderam, cada qual ao seu modo, a transformar o velho continente de savanas, planaltos frios, rios nervosos, montanhas de pedras peladas e inóspitas florestas tropicais. Arcadeus e arcafeus, no entanto, nunca estiveram convencidos de que a austeridade do continente arcadensita pudesse dar lugar a algum tipo de paz.

Genericamente, os arcadeus constituem um conglomerado de vinte e três nações (dentre elas estão os arcafeus), cujo ancestral comum é o povo arcaio, originário do Surrinsor, que migrou para o continente arcadensita há quinze ou dezoito mil anos (esse intervalo de três mil anos em tal estimativa até hoje é motivo de debate). Os arcaios eram descendentes de surrinsorianos do sul, enquanto que os povos negróides surrinsorianos do norte, originários da Savana Central Jacasliana, deram origem aos fergorianos, jusfalaritas, jacaslianos, parte dos oscartianos e dos gurmacenos. Estes cinco povos, por seu turno, formam quase duas dúzias de nações que se firmaram na região entre a Floresta do Brasolgar, no norte do Surrinsor, até as Terras Altas Jusfânicas, no extremo nordeste desse grande continente, bem como nas Grandes Ínsulas no mar entre os continentes arcadensita e surrinsoriano. Todavia, é comprovado que pouco tempo após a chegada dos arcaios ao despovoado continente arcadensita (que, aliás, deram nome a uma flor típica daqui, a pelo menos três países que surgiram no leste e ao próprio continente) a partir do Estreito de Biel, uma linhagem negróide dos oscartianos desceu pelas Grandes Ínsulas, a norte, e desembarcou na costa do que hoje conhecemos como Floresta da Grã-Oscártia (esse povo também deu nome a essa porção do continente). Aliás, a quesito de curiosidade, arcaia, na língua fielênica antiga, significava “povo do domínio” ou “da terra”, enquanto oscartí, na mesma língua, significava “povo da terra das árvores”; e são esses dois povos distintos  (arcaios e oscartianos) com significados semelhantes que deram origem a um só povo: os arcadeus.

arcadeus-e-arcafeus
Os arcafeus, por seu turno, são descendentes de uma linhagem de arcaios que atravessou o continente e colonizou o Planalto de Arcafiel. Aqui estabeleceram a primeira colônia há pelo menos 11 mil anos. Os arcafeus são uma nação, e por isso seu espírito de unidade e pertença é muito mais forte, suficiente para constituir língua, cultura e sistema político próprios. As primeiras tribos erguidas nesse Planalto migraram relativamente cedo para outras regiões mais férteis, como o estuário do Sumé, a sul; os charcos da Tuiolândia e margens do Lago do Brado, ambos a norte; as ilhas da Baía das Divindades, a nordeste e de volta às margens do Sumé, a oeste. Nessas condições, a nação dos arcafeus, já configurada com um forte espírito unitário, tornou a Banda Oriental do continente arcadensita num próspero lugar para tribos guerreiras, para o monoteísmo e para a tradição da navegação na Baía das Divindades. A ligação dos povos nas ilhas da Baía das Divindades com os povos estabelecidos na costa do Mar Fiel também foi predicativo para um desenvolvimento rápido das técnicas de pesca e cabotagem. Por dominar e aprimorar as técnicas de navegação, os arcafeus puderam subir o Rio Sumé pela primeira vez há 7 mil anos, bem como contornar a Península do Pien há mais ou menos 6 mil. Enquanto isso, as nações arcadéias nas entranhas do continente continuaram presas à cultura da caça, que tornou limitada a variedade de alimentos. Assim condenou esses grupos à vida poligâmica e nômade e presa às tecnologias rudimentares. Os arcafeus, por seu turno, graças ao desenvolvimento tecnológico e à abundância de comida, ergueram as primeiras cidades do continente e formaram os primeiros traços de um Estado.

Há pelo menos 5 mil anos os arcafeus ergueram cidades-estado nos mesmos lugares em que hoje estão erguidas Arcafiel, Broganforte e Belí-de-Bermanha. Enquanto isso, apenas duas nações arcadéias, os outrodianos e os magraus, repetiram o mesmo feito em tempo semelhante. Os oscartianos, no norte, ergueram a cidade que ainda hoje se chama Braazen, na Península da Ponta, há 4,5 mil anos, mas abandonaram-na misteriosamente por volta de 1050 a.S.

Arcafiélia-Broganfórtia_Evolução.PNG

O culto a Fiel, oriundo do monoteísmo conhecido dos arcaios (que foi, aliás, um diferencial entre todos os povos surrinsorianos), desenvolveu-se com maior força na nação arcaféia, enquanto que o culto a Barã, divindade equivalente para algumas nações arcadéias do centro, significou a criação de uma nova fé, diferente daquela que os arcafeus seguiam.

Aliás, a primeira guerra que separou pela primeira vez os arcafeus foi causada pelo confronto de fés: há 4,5 mil anos o fielenismo, ou culto a Fiel, surgiu entre as tribos estabelecidas do Planalto de Arcafiel. As tribos do norte, do charco e da floresta, rapidamente se converteram à nova fé, enquanto que as tribos do sul, resistindo à nova fé, sacrificou o Patriarca fielênico Daumênio II num culto a Sabar, há 4 mil anos, para a fúria das tribos do norte e do Planalto. A Grande Contenda separou os arcafeus e a linhagem broganfortiana, do sul, perdeu, sendo obrigada se converter finalmente ao fielenismo. Assim o culto a Fiel tornou a substância una entre os arcafeus de todas as regiões da Banda Ocidental, e permitiu que a escatologia militarista das tribos do Planalto desse aos Profetas Ungidos a qualidade de coroar os primeiros reis, os Violtis. Arcafiélia, a cidade  arcaféia do Planalto, e Broganfórtia, a cidade arcaféia do Estuário, fundaram reinos próprios e uniram-se apenas em 2487 a.S, no Ato de União. A partir disso a história é conhecida: quatro expansões Arcadênsia a dentro num período de 600 anos transformaram o reino da Arcafiélia-Broganfórtia no primeiro grande Estado militar da história, subjugando as demais nações arcadéias e alguns oscartianos por vários milênios.

Apesar de seguirem os rudimentos da mesma fé monoteísta dos arcaios, os arcafeus fielênicos foram a primeira nação a se afastar das metanarrativas sobrenaturais, dando espaço a uma nova perspectiva de mundo baseada na escatologia militarista-religiosa. Os Patriarcas da Fé eram especialistas tanto em decifrar os mistérios do espírito divino quanto na arte da guerra. Deram ao Estado arcafiélio-broganfortiano a mentalidade austera, ousada, expansionista e sagrada, messiânica por natureza, que anuncia a vitória do povo arcafeu sobre os inimigos que seguem fés diferentes. Isso tudo ainda sobrevive na filosofia política da Infalibilidade Imperial dos Violtis modernos, que são, teologicamente falando, profetas-patriarcas-guerreiros (dotados de fé, autoridade e força, respectivamente).

Esse espírito expansionista foi acompanhado por uma promessa: a de que as nações arcadéias seriam, mais cedo ou mais tarde, parte integrante de uma só nação, a arcaféia. O Império Tuiolês, que sucedeu Arcafiélia-Broganfórtia e Arcafiélia em 1719 a.S., levou isso muito além, dobrando a perspectiva da promessa para os seus irmãos, os surrinsorianos. Nessa expansão tuiolesa sobre o continente vizinho do oeste, o fielenismo serviu como aparato de controle via culpa, ao passo que os militares, também dotados de uma sacralidade espiritual, exerceram a coerção necessária para que os povos dominados se convertessem. Os rozenforitas, contudo, foram a última nação a ser convertida no Surrinsor e a primeira a se rebelar contra os arcafeus tuioleses em 180 a.S., culminando na expulsão dos tuioleses do continente em 183 a.S. Nos quase dois séculos seguintes, a Queda de Tuiol foi iminente.

O espírito do fielenismo só foi renovado quando Sulier instaurou a união de todas as nações arcadéias sob o Império Arcadensita, há quase 1400 anos. Arcadeus, arcafeus e oscartianos tornaram-se, logo, os três grandes troncos nacionais do novo Império com fé restaurada, tornando e considerando os arcadeus como uma só nação. Deste modo, magraus e esbrausianos, por exemplo, foram, para essa nova conjectura, considerados como integrantes de uma só nação; o que é hoje, certamente, um delírio, devido às diferenças abissais encontradas entre essas duas culturas. Apesar disso tudo, é respeitável o movimento revisionista que busca pulverizar novamente os arcadeus em vinte e três nações integrantes. Existe, também, o movimento que busca dar espaço ao movimento de separar os arcafeus em três nações distintas: broganfortianos, tuioleses e arcafiélios, tendo em vista a diferença desenvolvida entre eles durante esses 11 mil anos de história.

Portanto, todo todos os arcadeus são… arcadeus! Enquanto os arcafeus, embora tenham sugerido ser uma nação à parte, continuam a ser, no fundo, arcadeus, só que do leste.

Artigo extraído da coleção A Enciclopédia dos Povos, fragmento escrito por Idevran Florduart em 23/12/1386, publicado em 10/02/1387.