A História como fonte de inspiração para a ficção

Por Anderson Farias, o autor.

“Copiar de uma só fonte é plágio; copiar de muitas é pesquisa.”

Você já deve ter lido ou ouvido essa frase por aí, ainda mais quando o assunto criação de uma estória está na área. E onde podemos encontrar uma fonte mais vasta de inspiração senão numa biblioteca? Só o mundo da vida. Contudo, nem todo mundo presta atenção na vida ou tem uma vida cheia de aventuras para puxar da vivência qualquer coisa que seja útil na hora de contar uma estória. Esse foi e tem sido o meu caso. Acontece que o escritor versado em história tem mais facilidade na construção de tramas e personagens ricos do que aquele que tem interesse reduzido ao presente. Essa é a minha opinião e eu a defendo até o fim. Podemos tirar uma conclusão interessante a partir dessa premissa: o fato de lermos melhora o nosso vocabulário, enriquece a nossa escrita, ajuda com problemas que os não-leitores aventureiros a escritores encontram…  et outras explicações que não preciso listar. É certo que não quero dizer com isso que graduados em História estão quilômetros à frente de nós, reles mortais de outras áreas do conhecimento (embora eu também seja de Humanas). Sabemos que uma terça parte da história é ficção, outra parte é discurso, e a última, realidade. Perceba: não é tão diferente assim da ficção que construímos cotidianamente dentro dos nossos livros desesperados, pois construímos ficção, exercemos o discurso, com finalidade de se aproximar o máximo da realidade. A dialética bate palmas.

Nos últimos tempos, as maiores sagas literárias, as séries televisivas de grande sucesso e os filmes de entretenimento mais bem avaliados pelo público têm tornado evidente o uso da história como uma fonte de inspiração. Você, como público desse espetáculo, talvez tenha notado isso bem antes do que eu. O trajeto entre a Pré-História até a Antiguidade e depois à Era Moderna, desgraças ou glórias da espécie humana e das suas inúmeras civilizações em qualquer tempo passado, encontram representatividade em grandes sucessos do entretenimento contemporâneo. Como produtores de conteúdo para esse ramo, adiantar-se no conhecimento histórico significa aproveitar-se da fórmula que tem dado certo. Logo: o livro de história deveria ser o ponto de partida para um bom escritor de ficção.

Há uns dias eu li um artigo no site do Nano Fregonese (que, aliás, você deveria começar a ler hoje) cujo título lança a seguinte pergunta: “Como encontrar uma história para contar?” Ler esse artigo me fez refletir sobre o trajeto percorrido para a produção do meu livro, O Império da Flor, e as horas, dias e meses de pesquisa para encontrar fenômenos que me ajudassem nessa empreitada. Cada filme assistido, cada livro lido, cada jogo jogado… De repente deparei-me com uma enorme fonte para a produção dessa estória. Contudo, foi nos livros de história, nos artigos pesquisados e nos documentários assistidos que eu encontrei uma fonte tão vasta e segura de ideias que eu não tive capacidade cognitiva de processar e recordar tudo de absoluto! Bloqueios criativos ficaram tão raros que desde então eu nem sei mais como eles acontecem. Perceba a segurança nesta afirmação: a história é mesmo a maior das fontes de inspiração!

É óbvio que a primeira das influências para a escrita d’O Império da Flor não foi um artigo sobre visigodos e sua relação com a queda do Império Romano tardio na Península Ibérica, mas sim um simples jogo de PS2: Final Fantasy XII (uma série pela qual nutro paixão), da Square Enix. Nele tudo me interessou: os detalhes do protagonista Vaan e dos seus amigos, a luta dos rebeldes para restabelecer a Princesa Ashe no trono do Reino de Dalmasca, a disputa envolvendo os Impérios de Archadia e de Rozarria, o imperialismo do primeiro sobre seus vizinhos, a queda do Reino de Nabradia, a morte dos reis mais fracos e as ambições maldosas do Príncipe Vayne Solidor. Alguns nomes e lugares do meu livro foram inspirados no jogo, mas desde o começo superei a fonte-única e abri à estória outros mananciais de inspiração. Então vi nos personagens históricos, contemporâneos entre si ou não, um lugar para pesquisa. O sábio e sortudo Frederico II da Prússia, o Grande, o velho D. Pedro II do Brasil, o Magnânimo, o áspero Otto von Bismarck, o destemido Horácio de Matos, o devoto Antônio Conselheiro, a livre Imperatriz Sissi d’Áustria, a temerosa Catarina II da Rússia, a Grande, o revolucionário Vladimir Lênin, o temível Sultão Saladino, a corajosa Maria Quitéria, o cínico Voltaire, os ingênuos Luís XVI e Maria Antonieta, a visionária Imperatriz Leopoldina, o enigmático Conde de St. Germain, o oculto Hermes Trismegisto, o ambicioso Júlio César, o egocêntrico Napoleão I, o longevo Ramsés II, o Grande, a sanguinária Condessa Isabel Báthory, o sanguinário Calígula, o sádico Nero, o conservador Cardeal de Richelieu, o paciente Ieyasu Tokugawa… Como pode ver, bons personagens históricos estão aí para quem quiser se inspirar neles. Eu pessoalmente utilizei esses e muitos para a concepção dos meus principais.

Além dos personagens da história, outra fonte foram os acontecimentos. Ninguém duvida que bons personagens nada são se uma trama bem articulada não passar em torno deles. E os acontecimentos que mais marcaram cada um dos personagens inspirados podem servir de ajuda na produção dos elementos constitutivos das tramas a serem colocadas na estória. Mas tome cuidado! Isso pode parecer uma reprodução ipsis literis de um livro de história e, portanto, assemelhar-se a uma colcha de retalhos. Você evitará reproduzir esse erro se regras de originalidade forem delimitadas. E elas são determinadas pelas circunstâncias do elemento de inspiração e pelo contexto da obra. J. R. R. Tolkien, por exemplo, detestava que outras pessoas dissessem que seus livros estavam cheios de alegorias (que pode acontecer caso sua estória se vulgarize). O autor odiava isso porque a) ele não queria que seu trabalho literário corresse o risco de ser associado aos traumas sofridos na 1ª Guerra Mundial, na qual ele lutou como sargento, pois isso poderia esvaziá-lo de valor fantástico e criativo; b) seus livros, além de uma produção autêntica, foram uma experiência para a construção de línguas, a sua grande paixão e maior passatempo; c) ele era católico. Portanto, Tolkien evitava transmitir nos contos d’O Senhor dos Anéis e d’O Hobbit qualquer coisa que soasse como exemplos de vida e esperanças para um mundo melhor, acrescentando aos livros um papel muito mais vital e religioso do que ele inicialmente pensara (segundo ele em várias cartas, para esse papel existiam as Escrituras Sagradas). Essas são regras razoáveis, não? Tolkien, desde a primeira linha d’O Hobbit até a última d’O Senhor dos Anéis (suas obras mais populares), fugiu das alegorias, mas isso não significa que o discurso presente em ambas não existia e que as fontes de criação não tenham paralelo na história. A própria fé católica, aliás, foi a grande base para a produção do discurso presente em seus livros sobre a Terra-Média, desde O Silmarillion. O Cerco de Viena de 1529 e a Batalha de Viena de 1683, por seu turno, foram dois fenômenos históricos que o autor inglês talvez tenha utilizado para a escrita do ataque das hordas de Sauron sobre Minas Tirith, o qual podemos ler em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Neste artigo produzido por Eduardo Stark e publicado no site Tolkien Brasil, esse detalhe foi mais bem esmiuçado.

Podemos ver, portanto, que você pode fugir das alegorias e da reprodução ipsis literis de um livro de história mesmo utilizando personagens e fatos reais como inspiração para a produção da sua própria estória. Nas Crônicas de Gelo e Fogo, do americano George R. R. Martin, os nomes Lannister e Stark e a guerra entre eles têm uma clara inspiração nas Casas reais inglesas Lancaster e York e a Guerra das Rosas, respectivamente. Aliás, a própria geografia de Westeros se assemelha à da ilha da Grã-Bretanha, e a Muralha de gelo que separa civilização de barbárie, no Norte, encontra clara inspiração na Muralha de Adriano, construída para a mesma finalidade há quase dois mil anos. Perceba: todo elemento histórico pode ser reaproveitado para a produção de uma estória legal, cativante, verossímil e original. 

Outro elemento que usei e abusei para a escrita do livro foi o da circunstancialidade. Isso significa que um fenômeno passado, dentro da estória, possui importância histórica e reproduz em si circunstâncias com as quais os personagens estão ligados e devem superar, mas sempre respeitando a conjuntura dada. Quero dizer com isso que os personagens podem fazer sua própria história, mas as circunstâncias para isso já estão dadas, logo, o contexto da vida de cada um está ligado ao passado e essa é a regra a qual devem seguir (assim como nós mesmos na vida real). Isso se aproxima da premissa materialista histórica de Karl Marx, a qual eu não me identifico por inteiro, mas considero interessante: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem. Eles não escolhem as circunstâncias da sua escolha, pois elas são encontradas e transmitidas pelo passado” (Marx, in O 18 de Brumário de Luís Bonaparte). Cada situação histórica que os personagens encontram determina as circunstâncias das suas ações, embora eles possam condicionar sua vontade para superá-las. Isso é muito semelhante às regras dos sistemas de magia que alguns autores de fantasia utilizam em seus livros para se aproximar de uma verossimilhança mágica, ou realismo mágico.

Produzir um livro utilizando como fonte de inspiração acontecimentos e personagens históricos não significa limitação ou falta de criatividade; pode ser muito pelo contrário: trata-se de uma atitude que pode ser sábia, à medida que novas ideias venham a surgir, calhando numa estória rica. Todas as formas de expressividade são lícitas quando estão baseadas em estruturas razoáveis e quando se aproximam do belo. A estética é objetiva, e tal objetividade deve ser levada em conta pelos autores na hora de sua produção. A demanda por obras inteligentes e bem sustentadas está alta, e não bastam explicações vazias sobre “o porquê do autor utilizar isso“, pois as perguntas agora são outras: “como o autor chegou a isso e o que ele utilizou para isso?” Conversando com um colega outro dia, falando sobre a série Game of Thrones, chegamos à conclusão de que as filosofias hobbesiana e maquiavélica podem ter sido usadas pelo autor dos livros originais na hora de produzir o discurso dentro da obra, que tem a ver com a condição humana e a amoralidade do príncipe no trato da política.

A história da nossa civilização tem infinitas possibilidades de exploração para quem possui um agudo senso criativo. O processo de pesquisa é demorado, mas dá bons frutos. Ela requer disciplina, pois absolutamente tudo pode ser demasiado interessante, correndo o risco de no final ficarmos com nada. Os mais limitados, como eu, devem ser disciplinados ao dobro, pois é preciso ter uma leitura cautelosa, paciente, demorada, casada com um cuidado cirúrgico na hora de transmitir isso ao papel. Nesse ponto, a leitura criteriosa é basilar. Se quiser ouvir a voz da experiênciaeste artigo do professor Rodrigo Gurgel lhe trará muitas respostas.

Termino este artigo com um ditado de um povo que gosto muito (e que eu criei, rs): “Quando se bebe uma taça de passado, sente-se o gosto do futuro.

Beba, embriague-se com o passado. Isso lhe fará sentir o gosto do futuro.

É premonitório.

Anúncios

Um comentário em “A História como fonte de inspiração para a ficção

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s