Relato de experiência: sobre escrever um calhamaço de 1109 páginas

Eu escrevo livros, por isso sei todo o mal que eles fazem (Leon Tolstói)

Por Anderson Farias, o autor.

Nada ou ninguém (pelo menos não que eu me lembre) aconselha um escritor novato a escrever um livro com 438.000 palavras e 1109 páginas. E quem faz isso talvez esteja cometendo um destes três pecados literários: ingenuidade demais, pretensão demais ou paixão demais. Percebe-se o objeto do pecado: o excesso. Assim como o passar das páginas que se sucedem por mil e cem vezes, tudo pode ser coisa demais. E o que é excesso acaba sendo falta na hora das escolhas dos outros. Então, se você é ou conhece um escritor iniciante que escreve um livro desse tamanho, estas palavras são de alguém com experiência nisso: meu conselho é parar imediatamente o que está fazendo e começar a cortar na carne o que não é estritamente necessário. Não sou editor , então não vou lhe ensinar a fazer isso.

Sério. Não é cult nem gourmet fazer isso se você tem pretensões de ser publicado ou reconhecido pelo seu [árduo] trabalho. Poucos autores alcançaram o sucesso no mercado editorial por essa via excessiva… E se isso acontece, lembre-se de que é uma exceção, jamais uma regra: livros grandes são como o grão de açúcar gordo que a peneira implacável dos editores logo descarta na hora de confeitar o bolo. E não pense que o seu livro será a cereja dele. Talvez você até venha a ser, mas daqui para lá provavelmente estará morto ou decrépito.

Por que digo isso, sendo eu um desses pecadores que escreveu um calhamaço de mais de mil páginas? Porque nesses cinco anos eu tenho pesquisado, estudado e dedicado o que o mercado editorial vem apresentando no meu gênero literário, a fantasia. E por esse ser um gênero ainda difícil, muito exposto, mas pouco representado por uma gama de autores estabelecidos no país, sei que apenas obras com certeza de algum retorno financeiro em médio prazo vêm sendo publicadas. Isso significa que, pelo custo das editoras ser consideravelmente alto para um nicho tão seleto e com razoável demanda, obras difíceis ou demasiadamente complexas são categoricamente recusadas no processo de avaliação editorial… conquanto você seja o novo Tolkien do século XXI ou o George R. R. Martin brasileiro (e, convenhamos, nós dois sabemos que isso é um pouco difícil de acontecer)… sabemos qual é o seu destino se você é um desses indivíduos. Mesmo os dois autores acima sofreram duras penas por escreverem excessivamente.

Tolkien, que trabalhava nas suas estórias desde as trincheiras da 1ª Guerra Mundial, queria, inicialmente, que O Silmarillion e O Senhor dos Anéis fossem unidas num único volume… Os editores que publicaram O Hobbit anos antes só não riram da cara dele porque a estória da aventura de Bilbo já fazia um estrondoso sucesso, produzindo um enorme público e formando uma geração de leitores interessados nos contos em torno da Terra Média. Martin, num destino semelhante ao de Tolkien, foi mais teimoso (e isto lhe custou caro). Na década de 80 ele era um conhecido produtor de Hollywood, mas nem sempre suas ideias arrojadas cabiam no orçamento reservado às produções, o que lhe fazia perder boas oportunidades de emprego. Seus executivos queriam ideias menos arrojadas, mais enxugadas, com menos personagens e menos cenas. O que dava para ser reaproveitado das suas pilhas de manuscritos nem sempre agradavam ao pai da futura Mãe dos Dragões.

Martin colocou em (até agora) cinco volumes de mais de 6000 páginas ao todo o que ele aprendeu com sua insistência. O menor livro das Crônicas de Gelo e Fogo, A Guerra dos Tronos, possui 298.000 palavras, o que é um baita de um calhamaço. Mas lembre-se: você não será o George R. R. Martin Brasileiro, tampouco o J. R. R. Tolkien do século XXI (desculpe repetir isso). Sabe por quê? Porque além de Martin ser Martin e Tolkien ser Tolkien, o primeiro teve ao menos 30 anos de experiência literária, virou um famoso produtor, um cara premiado e cheio de amigos editores; o segundo foi um baita de um filólogo, doutor, conhecedor de inglês antigo e cheio de contatos no mercado editorial (alguns dos quais foram seus colegas de graduação e de profissão). Dois dos maiores escritores de calhamaços da literatura de entretenimento do século XX (embora Martin ainda permaneça vivo, parte das suas obras foi escrita naquele século) que você respeita já eram… pasme… respeitados & reconhecidos. Quem é você, ó ser humano latino-americano sem dinheiro no banco e sem parentes importantes, na fila do provinciano mercado editorial brasileiro?

Você deve estar cheio de motivos para se perguntar o porquê de eu ter escrito um livro desse tamanho, e possivelmente cheio de respostas sobre os meus motivos para escrever este texto remorso, dor e aflição talvez. A verdade é que eu escrevi O Império da Flor, esse livro enorme, porque eu precisava. Eu tinha apenas 16 anos  e não sabia de nada igual ao Jon Snow quando comecei a me interessar pela escrita, e esse livro foi minha primeira (e única) experiência desde então. Acontece que eu, tal qual Martin, sou teimoso. Na verdade, sou brasileiro e não desisto nunca. O que serviu de experiência no começo, foi ganhando forma, complexidade, volume e interesse. Vi na escrita desse livro uma oportunidade para colocar toda a minha imaginação para trabalhar, pois o que mais me frustrava era ler um livro ou assistir a um filme e nada terminar como eu gostaria (desculpa falar, sou exigente mesmo). Só tive pretensões de transformar minhas ideias num livro quando notei que todos os países, todos os personagens, todos os ambientes e todas as histórias que eu conhecia poderiam caber num romance. O mundo literário que eu criei tinha tudo para ser um mundo exclusivamente meu chupa Napoleão. Somada à necessidade de ocupar minha mente com algo, seja pela raridade dos amigos ou das aventuras na vida concreta, decidi por viver pela criação. A experiência ganhou contornos de necessidade, como faz um vício cáustico, e três anos depois (lá em 2014) fiquei frente a frente com o resultado: um esboço com 309.740 palavras e 802 páginas. Mas estava tudo tão ruim, tudo tão fora do lugar, como em qualquer esboço, que meu senso de proporção e meu perfeccionismo visceral exigiram que eu fizesse algo mais bem feito. O resultado surgiu dois anos e meio depois, e… com uma… versão ainda maior… de 438.000 palavras e 1110 páginas. Mas agora estou satisfeito, e se estou é porque tudo está realmente em seu devido lugar até agora.

Contudo, saber como funciona o mercado, qual é a média geral de palavras dos livros que fazem sucesso (você pode consultar esta interessante lista para ter uma ideia), o preço para a impressão por unidade, a diagramação, a revisão e a análise crítica de um livro… tudo isso, quanto mais altos são os valores, mais se diminuem as chances de publicação para um escritor iniciante com uma bíblia dessas debaixo do braço batendo de porta em porta pedindo para que ouçam a palavra de Jeová suas propostas. É proporcional. Ainda há um fator impeditivo: autor novo não tem nenhum leque de oportunidades no mercado editorial. Não sou eu a dizer isso, mas todos os jovens escritores que encontrei pela vida e foram muitos. E a vida tem razão. Não há público em torno do autor novato, não há nome, não há nada, e as editoras precisam gastar enorme quantidade de tempo e recurso para que isso seja construído. Desse modo, livro grande + autor iniciante é uma conta que não dá um resultado satisfatório para os editores.

Mas não quero que a minha experiência de escrever um livro com um tamanho exagerado esteja voltada apenas para questões puramente mercadológicas. Mas uma hora ou outra esse tema aparece. Afinal: se você escreve livros, sua finalidade é ser publicado; se você esculpe ou pinta, sua finalidade é ser exposto numa galeria; se você compõe músicas, sua finalidade é ser ouvido… Toda ação humana procura uma adequação igual ou equivalente a partir de um sentido previamente mensurado. Escrever um livro com tantos personagens, cenas e situações me fez conhecer coisas que eu jamais teria imaginado, pois o processo de pesquisa para ambientações, estudo de arquétipos e de estrutura narrativa, construção de diálogos, exploração dos sentimentos humanos, críticas sociais, etc., aguçou a minha razão… Todo esse conjunto é o que dá um tom formidável à sinfonia. Mas é uma ação solitária e às vezes frustrante. Ver os amigos e conhecidos vivendo sua juventude enquanto se escreve um livro que nunca será publicado pode ser angustiante à primeira vista e é mesmo… Mas é aquele ditado: “quem não tem nada a perder, dá as caras.” Cada detalhe, cada personagem, cada objeto construído, no final das contas, tornam-se parte de quem o escreve (embora isto possa evoluir para uma vaidade e um orgulho bobos, que não permitem críticas e que na maior parte das vezes acabam virando mesquinharia). Livros grandes existem, mas os clássicos têm mais motivos para construí-los. Como não sabemos se um dia seremos clássicos ou não, é melhor produzir livros menores, mais fechados, mas não menos densos, centrados em mensagens e personagens mastigáveis.

Entenda os livros menores como se fossem as pedras da base de uma pirâmide, em cima das quais outras maiores poderão ser assentadas sem se afundar de vez na areia eu não sei como foram construídas as pirâmides, mas você entendeu a metáfora. O que seria de Leon Tolstói e seu Guerra e Paz sem suas menos monumentais obras da vida adulta? O que seria de Charles Dickens e seu David Copperfield se não tivesse se aventurado nos contos menores e com maior probabilidade de sucesso? O que seria de Victor Hugo e seu Os Miseráveis se não tivesse os quarenta anos de experiência com contos, poesias e ensaios? O que seria de J. R. R. Tolkien e seu O Senhor dos Anéis sem o sucesso d’O Hobbit e da demanda criada por ele? O que seria de George R. R. Martin e as Crônicas de Gelo e Fogo se não tivesse ganhado prêmios por livros mais simples no seu passado? A verdade é que nenhum desses autores calhamaçais (com o perdão do neologismo) teria alcançado sucesso no seu tempo sem os livros comuns, normais, menos “monumentais”. Eu sei disso desde que resolvi chamar aquele arquivo de Word de “livro”. Mas a experiência foi fabulosa. Escrevê-lo foi como estar dentro da Abertura 1812, de Tchaikovsky: tudo começa penosamente, no frio do Inverno Russo, e termina com fogos coloridos e uma salva de canhões energeticamente bem orquestrados a um encerramento grandioso, caloroso, glorioso, como a história da grande nação eslava. Não sei se O Império da Flor será meu Magnum opus (se é que serei clássico para ocupar meu tempo pensando nisso) tampouco se mais de dez pessoas terão lido tudo até o fim, mas de uma coisa eu sei: comecei e terminei, recomecei e concluí, e isso me produziu uma satisfação pessoal pouco sentida n’outras coisas que eu tenha concluído desde então. Veni, vidi, vici. Vim, vi e venci, disse Júlio César ao Senado Romano. E eu ousaria acrescentar à ocasião: Vim, vi, vivi e venci. Sou suspeito para falar das consequências disso, mas eu faria tudo de novo, exatamente igual… Meu espírito evoluiu e agora eu sou outro. Produzir esse livro foi comer uma proteína pesada, mas com a qual fortaleci meus músculos para uma nova construção.

Como você percebeu neste artigo, eu sou um daqueles que falam demais. Caio Fernando de Abreu tem uma frase que traduz muito bem isso:

Escrevendo, eu falo pra c#r#lh#, não é?

Que seja. Eu faria tudo de novo. Cada frase, cada palavra, cada ponto. Ponto. .

 

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