O Eremitério dos Sábios

Por Anderson Farias, o autor.

PARTIRAM OS GRANDES SÁBIOS PARA O EREMITÉRIO. Restaram os ingênuos que não sabiam a simplória diferença do que é e do que nunca será. Faziam confusões das mais grosseiras e agrediam os que tinham um pouquinho de razão. Formaram uma Justiça fraca, mas prepotente, capaz de dizer, ingenuamente, o que era verdade e o que não era; apossaram-se da verdade para seus próprios fins. Segregaram os mais fracos e entronaram os mais fortes, a fim de dizerem quem era o mais sábio entre todos. Quantificaram a força para compará-la à sabedoria, e esqueceram-se desta para possuírem aquela. Agora viviam oprimidos, seja pela força dos mais fortes, seja pelo medo dos mais fracos, e permaneceram assim por muitos anos. Quando os sábios retornaram, viram que os ingênuos se diziam os verdadeiros sábios, e não toleraram a rivalidade dos recém-chegados. Os ingênuos zombaram dos mais sábios e dos seus ensinamentos de justiça e verdade, e passaram a ridicularizá-los com infinda energia. Os mais sábios retornaram para o seu eremitério e lá fundaram o reino da Justiça e da Verdade, no qual nenhum ingênuo poderia acessar. Quando a iminente peste veio, dizimando o reino dos ingênuos, seus sobreviventes clamaram por cuidados no reino daqueles que outrora haviam zombado; foram recebidos com hospitalidade e respeito, apesar das leis ali existentes impedirem o seu acesso. Durante a estadia, os ingênuos não ouviram sequer uma palavra ressoar da boca dos seus hospitaleiros anfitriões. Agora mudos e surdos, e doentes, os ingênuos sentiram que maior doença estava ali, no silêncio profundo dos homens que se diziam sábios. Preferiram partir para o seu reino pestilento, pois lá certamente ouviriam ao menos o cantar dos corvos em regozijo pelo grande banquete humano que se servia nas ruas. Morreram aos poucos, definhando, mas mesmo assim ficaram felizes por ouvirem qualquer coisa, desde o cantar dos corvos até o cantar da Morte, simulada nas mastigações dos vermes que lhes tomavam o corpo todo. Toda a gente morreu feliz por não compreender o silêncio; pois o silêncio era a maior Justiça e a única Verdade. O único sentido do eremitério era de que qualquer palavra jamais poderia ser dita — todas as palavras já estavam na cabeça dos sábios e pairavam sobre eles sem que abrissem a boca para dizê-las. Os ingênuos, extintos do mundo, jamais entenderam o profundo e nobre significado do silêncio: o de conservar a verdade para manter a justiça, por isso gritavam mais alto ao passo em que se aproximavam da morte, mesmo na lenta putrefação da carne. Queriam ouvir qualquer coisa, embora nem mesmo o silêncio tivesse condições de curá-los.

02.05.2014.
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