“E Arcadênsia domina os céus” – por Tuniol Elbencão

“Quando o inimigo anda, podemos persegui-lo na terra. Quando ele nada, podemos afogá-lo. Quando ele voa, podemos derrubá-lo. Quando ele pode fazer as três coisas, podemos pedir clemência.” (General Jéreme Costabranca)
Por Tuniol Elbancão

A Força Aérea Imperial de Arcadênsia, além de ter sido a maior força desse tipo no mundo, era a única que dispunha de grandes aeronaves mais pesadas do que o ar com cascos blindados e armas de fogo de alto calibre — diferentemente das de Rozenfor. Para entendermos como tecnologia tão aprimorada se desenvolveu num período relativamente jovem da Era Imperial, precisaremos recorrer ao passado, aos primórdios dos primeiros aeróstatos e dos primeiros esboços do que futuramente viriam a constituir as aeronaves de guerra.

Essa tecnologia aérea se desenvolveu em Arcadênsia por volta do início do Segundo Milênio com a construção dos primeiros balões de ar quente. Na busca pelo controle daqueles que viriam a ser os primeiros aeróstatos, adaptações foram feitas até aquilo que conhecemos por dirigível ter sido pensado por Carlo Belgano em 1096.

Seu primeiro voo partiu de Arcafiel e atravessou o Mar Fiel um dia depois. Chegou à costa da Promenóvia no segundo dia, retornando à Arcafiel após uma viagem de mais cinco dias e cinco noites. Embora não tivesse sido uma excursão rápida e segura, Belgano pôde demonstrar com a sua nova máquina que era possível controlar as aeronaves mais leves do que o ar. Ovacionado pelo público e saudado pelo Imperador Baverlano I Dorinsor, o Engenheiro, Carlo Belgano também fora um dos fundadores da Academia do Aeroclube de Arcafiel (mais tarde Imperial Academia do Aeroclube), na qual foram pensados os mais prodigiosos projetos visando desenvolver mais e melhor a autonomia dos aeróstatos.

Somente em 1119 — portanto vinte e três anos após o voo inaugural do dirigível de Belgano — que o aeronauta e inventor João Kalikate realizou o primeiro voo com máquina controlada por hélices movidas a vapor e sustentada por balão de hélio, que segundo ele era “dotada de verdadeira autonomia.” Seu aeróstato era diferente daquele que Carlo Belgano construíra, e o próprio Kalikate não gostava das comparações que costumavam fazer entre ambos. Sua rivalidade com o Aeroclube era visível — e risível —, e debates, xingamentos públicos e constantes ameaças eram comuns nas ruas de Arcafiel entre os seguidores de Belgano, fieis ao Aeroclube, e os seguidores de Kalikate, chamados de “loucos” porque sonhavam que as hélices e os motores leves trariam a tão sonhada autonomia às suas máquinas voadoras e deixariam de lado os balões de gás.

Para mostrar que sua invenção era diferente e mais eficiente, Kalikate transformou uma pequena embarcação em aeróstato de hélio com a propulsão de duas hélices alimentadas pelos motores a vapor originais da própria nau. Finalmente, após muita espera, numa primavera ele decidiu fazer o primeiro experimento. Reuniu toda a imprensa e convidou especialmente o Aeroclube de Arcafiel, o maior do mundo, para que fossem testemunhas da nova dádiva dos céus imperiais. Quando finalmente alçou voo, não causou muito espanto: a altura máxima conseguida pelo invento não ultrapassou os vinte metros. Considerada pelos conservadores membros do Aeroclube como uma invenção fracassada, o nome Kalikate ficou esquecido durante 20 anos: um para cada metro alcançado. Segundo ele, seu invento fora vítima de sabotagem e conspiração.

Em 1140, já idoso, João Kalikate inventou seu último aeróstato para o espanto da imprensa e do Aeroclube: a Mad’ Celestianina, um reinvento da mesma “aeronave”, mas mudada por ele apenas em alguns detalhes. A Mad’ Celestianina era mais leve e menos robusta, possuindo, além das hélices de propulsão, quatro hélices de sustentação colocadas nas laterais do casco. O balão de hélio e o casco foram mantidos, e os remendos causaram risos nos senhores do fechado Aeroclube. Toda a sociedade estava descrente e muito pouco crédito dera ao inventor. O Aeroclube, porém, nunca desconfiara da capacidade de Kalikate e nunca subestimara o inventor, e tinha bastante receio sobre o impacto dos seus inventos. E para o terror desses senhores, na tarde de 5 de Janeiro de 1140, num verão ensolarado, a aeronave Mad’ Celestianina ascendeu e no seu voo inaugural conseguiu alcançar a marca de 219 metros, comandada a todo instante pelo próprio inventor para todas as direções. Os ventos úmidos e quentes não impediram a autonomia da aeronave, que desfilou majestosa frente às mais diversas correntes; e no final, após sobrevoar pelos ares de Arcafiel, a Mad’ Celestianina retornou ao aeródromo e seu inventor foi recebido com pompa de herói. Para o futuro da aviação era apenas o começo de um novo e longo processo, mas para João Kalikate era o fim da vida: morreu de infarto fulminante quando pisou no gramado do aeródromo.

Ao longo dos tempos a invenção de Kalikate foi sendo aprimorada pelas novas gerações de inventores. Em pouco tempo eles criaram aeronaves que se sustentavam no ar com a ajuda de grandes hélices horizontais e verticais. A primeira aeronave que executou voo completo sem a ajuda de balões de hélio foi a Belozúvio, que decolou de Ídelin, nas margens do Sumé Central, e posou em Reidor, distante 552 km, no mesmo dia. Seus inventores eram os até então anônimos irmãos Quindomargo.

A Belozúvio se tornou a primeira de uma série de aeronaves que viriam seguindo o projeto original dos irmãos Quindomargo, que por sua vez se basearam na invenção de Kalikate, que se baseara na invenção de Belgano. Eram caracterizadas pelos cascos semelhantes aos de navios, porém mais leves, e pela sustentação e propulsão por hélices — podemos observar aí que muito do que Kalikate inventara e aprimorara se preservou.

As primeiras unidades eram lentas e bastante pesadas, mas quando o Império passou a construir as suas próprias aeronaves para fins militares, utilizando a Corporação Lunité, muito se aperfeiçoou para que elas se tornassem mais rápidas, leves, resistentes e eficientes. Já no início de 1300 o meio de transporte predominante para longas distâncias passou a ser feito por essas máquinas aéreas; e a cada ano elas enchiam mais e mais os céus imperiais com o seu singular zunido.

Deste modo, o segredo do Império para seguidas vitórias em batalhas decisivas concentrava-se em sua Força Aérea. A cidade de Biel, por exemplo, pôde ser tomada em menos de quatro horas durante a Guerra de Albalamid, depois que todas as suas defesas foram destruídas por duas das maiores aeronaves que o mundo já vira: o Flancour-25 e o Pamanam-35. E Arcadênsia, assim, dominou também os céus.

Extraído do volume de livros Os Contos Verdadeiros de Zafirra, por Tuniol Elbencão.
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