Do Brasil a Arcadênsia: algumas considerações

Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.

Johann Wolfgang von Goethe

Por Anderson Farias, o autor.
Nenhum escritor está despregado da realidade. Ora, nenhum ser humano vive tão somente nas nuvens, pois antes de sonhar, ele existe num mundo dado (estamos, logo, falando de pessoas vivas e que existem). A realidade é o que condiciona as nossas expectativas sobre o futuro, e por essa qualidade, nada foi tão real quanto o passado, esta eterna fonte para as coisas do presente. Mas por desconhecermos a totalidade do presente, não podemos dizer, como seres sonhadores que somos, que tudo é totalmente realidade. Embora nosso cérebro, um órgão que existe, possua funções cognitivas limitadas pela materialidade, uma partezinha é suposição, metafísica, ideias, construções da mente, loucura… Enfim, o passado determina as nossas condições para viver no e conhecerpresente, embora tenhamos as capacidades limitadas de mudá-lo, e infinitas de supô-lo.

O que quero dizer com o parágrafo acima? Que todo escritor, apesar de sonhar para frente, está com uma parte do corpo preso por trás. Pressionar-se contra essas amarras é o movimento que liberta sua mente e torna a criatividade mais (com o perdão da redundância) criativa. Ele jamais desconsiderará, no entanto, as coisas que existem… A língua, o papel, seus olhos, sua mão, seu cérebro… todas estas coisas têm o seu limite.

ORIGENS

Como um amante da história desde a minha tenra idade, pude conhecer momentos que eu desconhecia, e ao longo desses anos, fui adquirindo uma noção do todo (embora, claro, o todo nunca se completa para uma só mente — ainda não evoluímos para seres omniscientes). Em determinado momento da vida, eu me vi pronto para escrever uma estória utilizando os recursos que já possuía. A história e o passado tornaram-se fontes inesgotáveis para a criatividade. E como o animal humano, só pude criar algo a partir daquilo que já existia. Pois bem, dito essas coisas todas, posso começar a escrever neste post sobre a maior influência para a construção de um novo mundo num livro de fantasia como O Império da Flor: o Brasil.
Obviamente Arcadênsia, esse “Império da Flor”, não é uma alegoria para se contar a história do Brasil via obra de ficção. Apesar das claras semelhanças geomorfológicas, econômicas, sociais e políticas entre o país fictício e o país real no qual nasci, trata-se de um recurso que todo escritor, desde Virgílio (ou até antes) utiliza como inspiração para suas obras. Grandes narrativas necessitam de grandes influências, e as melhores influências estão à vista do escritor; elas se desenrolam perante os seus olhos a partir do presente. E se ele quiser contar uma boa estória do começo, é bom olhar para o passado.

É claro que estou me referindo aqui às narrativas épicas, que necessitam de um arcabouço mínimo para serem desenvolvidas, pois o desenrolar da jornada dos personagens precisa de um lastro histórico dentro do livro no qual está inserido. Não se pode escrever dez livros sobre a jornada épica de João sem que seja contada a origem de João, ao menos nas entrelinhas, para que possamos entender os fins de João. E esse argumento leva a outro, pois, se tratando de narrativas épicas, é preciso entender que estou me referindo ao gênero romance (não estou falando do poema como recurso de narração do épico — que, a nota de curiosidade, eu adoro); é o romance da vida e trajetória de João. Assim sendo, para escrever O Império da Flor, precisei recorrer a uma parte do material produzido pela humanidade, mas sobre a história do meu país. Como estou longe de ser um gênio ou um inventor, segui pelo caminho do possível: comparar o que eu já tinha escrito ao que já tinha sido contado na história e na ficção, e obter os detalhes mais verossímeis em ambas as literaturas; levei a obra, que já estava concluída, ao processo de “verossimilhancização” (com o perdão da extensão do neologismo). Deste modo, construí os parâmetros do possível dentro do livro utilizando uma parte do todo que eu adquiri para escrevê-lo, ou seja, tornei a estória possível, como se estivesse determinada pelos limites da nossa própria história. Lembram-se do “passado determina o presente”? Então… Tendo plena noção do significado disso, limitei os homens e mulheres da estória aos mesmos parâmetros que os nossos.

CONVERSAS COM A HISTÓRIA DO BRASIL

Confesso que mesmo após três anos escrevendo a primeira versão d’O Império da Flor (finalizada em 2014), utilizar a história do Brasil como fonte de inspiração só me pareceu uma boa ideia ao começar a reescrevê-lo, no quarto ano de trabalho. Esse momento de notar sutilezas na estória causou um profundo descompasso entre o começo e o fim do livro. Isso necessitava ou de uma profunda reescrita da obra ou, mais drasticamente, uma nova escrita. Como preferi a última opção, reduzi o livro todo aos primeiros dez capítulos, e a partir destes, reescrevi toda a obra. Não poderia pegar elementos solitários da história do Brasil e configurá-los ao meu bem entender para acrescentá-los ao livro; precisei, antes, configurar todo o livro para que aqueles elementos de inspiração coubessem harmoniosamente.

O café e a cana-de-açúcar como produtos importantes para a economia; o desenvolvimento do comércio por vias rudimentares, mas que deu certo; a explosão das indústrias em algum momento recente; a instabilidade política ocasionada da poluição da esfera pública pela esfera privada; o protagonismo dos militares em tomar decisões-chave para os rumos da política; etc.; são alguns dos elementos que são encontrados tanto na história do Brasil quanto na estória de Arcadênsia. Isso, no entanto, não torna Arcadênsia uma espécie de Brasil, nem tampouco o Brasil pode ser explicado por via dessa ficção… Logo, não se pode chegar à conclusão de que O Império da Flor é na verdade uma alegoria para se entender o Brasil.

A autoridade regional do Coronel, que sustenta outra maior, a do governador, e a autoridade do governador que sustenta outra, a do Presidente, é a identidade política do Brasil entre finais do século XIX até 1930 (estamos falando, claro, dos fenômenos do Coronelismo e da política de governadores). O Intendente, o Administrador de Província e o Imperador, no livro, também sustentam uns aos outros partindo da autoridade mais particular até a mais geral.

Dentre outras coisas, a questão da moralidade embebida numa escatologia religiosa milenar se faz presente tanto na história real e como também na minha ficção, além das consequências claras extraídas a partir disso.

Além das semelhanças sociais e políticas, Brasil e Arcadênsia também possuem similaridades físicas. Em ambos há uma floresta tropical densa, que toma todo o norte dos países. Devido aos perigos que habitam a região e às dificuldades de subsistência, hegemônicas ali, torna a densidade populacional muito baixa. Nos rincões do centro surgem charcos e planícies aluviais, em que impera a cultura da pecuária e do pastoreio sazonal. Apesar de um deserto que se prolonga na costa sul de Arcadênsia, dissociando-se, portanto, do sul frio do Brasil, as porções de terras frias no país fictício começam a surgir apenas no leste, nos topos d’A Cordilheira. No oeste de Arcadênsia, tal qual no sul do Brasil, há uma histórica instabilidade política, que resultou por muitas vezes em longos períodos de secessão. A metrópole de Arcadênsia emerge no leste, tal como no Brasil com o Rio de Janeiro. Ambos os países estão localizados no Hemisfério Sul dos seus respectivos mundos, e estão economicamente ligados à produção de matérias-primas; Arcadênsia, no entanto, exporta aos demais países do globo bens industrializados. A densidade populacional em ambos os países é considerada baixa, e há neles considerável quantidade de água doce e de energéticos. As semelhanças, porém, acabam por aí, pois enquanto Arcadênsia possui um território do tamanho ao da Rússia, o Brasil tem metade disso. Arcadênsia possui mais de mil e quatrocentos anos de história, enquanto o Brasil possui quinhentos. Arcadênsia só viu o estágio antigo da escravidão, sem critério de raça e cor; enquanto o Brasil experimentou a amarga escravidão moderna, cujo critério era principalmente baseado na raça e na cor. Apesar das claras divisões de classes, o arcadensita médio tem uma desenvolvimento humano bastante elevado (o maior do seu mundo); enquanto no Brasil, experimentamos níveis ainda baixos de desenvolvimento humano. Econômica, política, militar e diplomaticamente, Arcadênsia é uma potência hegemônica global; enquanto que o Brasil sempre permaneceu como uma potência regional. Arcadênsia já surgiu como metrópole, ou seja, já possuindo um Estado-nação colonizador; enquanto que o território “Brasil” surgiu como colônia de exploração de um Estado-nação estrangeiro, para constituir-se como Estado-nação somente no século XIX. A partir daí, as diferenças que claramente existem entre um país de ficção e outro real tornam-se menos estruturantes.

ENTRE O NACIONAL E O ESTRANGEIRO

Um romance de fantasia épica é deveras difícil para ser criado sob os parâmetros aqui encontrados no Brasil. A tradição, a cultura, a língua e até as visões de mundo de um inglês do interior levam-no a ler a trilogia d’O Senhor dos Anéis sem estranhamentos, pois ele está lendo uma obra produzida no centro da sua própria cultura. Ler sobre elfos e hobbits para um brasileiro dos rincões do Nordeste, cuja visão de mundo está submergida numa cultura e numa tradição particular à sua própria sociedade e existência, leva a leitura a fins que o próprio autor (nesse caso J. R. R. Tolkien) jamais teria imaginado (isso, no entanto, não torna uma dificuldade por si só). Obviamente Tolkien não escreveu O Senhor dos Anéis para ser lido apenas para o inglês médio, mas os elementos para a criação dessa obra vieram, contudo, da cultura a qual o inglês médio está familiarizado e embebido. Escritor nenhum está despregado da realidade, repito. Para criar coisa B, é preciso que coisa A já exista. B não nasce do nada, embora A seja algo dado. O Brasil é, para minha escrita, algo dado, e o livro é a criação baseada nele.

A fantasia é um subgênero autônomo na literatura de ficção. Mas para acontecer esse movimento de transformação da fantasia num subgênero, precisou-se seguir influências impostas pela cultura na qual ela surgiu: a anglo-saxônica. Digo que a semente da fantasia como subgênero surgiu da escrita de língua inglesa, com narrativas surgidas no mundo e na cultura anglo-saxãs, com visões de mundo praticamente suis generis à sua cultura milenar. Não à toa a influência medieval é ainda hoje tão forte nessas narrativas, pois nesse momento emergia na Europa a cultura e a nação anglo-saxãs (conquista da Britânia pelos anglo-saxões na Alta Idade Média até a luta dos povos normandos contra os mesmos anglo-saxões na Baixa Idade Média). Sairia caro à literatura nacional ter que criar um novo gênero do nada, portanto, um movimento interessante foi reaproveitar a técnica e a estrutura narrativa da fantasia medieval anglo-saxã para calibrá-la à cultura e à história nacionais. Muitos autores brasileiros estão fazendo isso, e esse movimento é bastante interessante.

O barroco talvez tenha sido a mais longa experiência cultural na história brasileira. Ele nos deu alguns elementos interessantes, de contemplação e submissão, de sacralidade e humanidade. Essas dicotomias fizeram do barroco brasileiro, surgido em meados do século XVII por via das missões jesuíticas, um dos primeiros anúncios de uma cultura nacional. Com a chegada do neoclassicismo, no início do século XIX, a perspectiva artística se modificou, e experimentamos novas fronteiras. Além dessa sucessão demorada, vieram outras escolas que pulverizaram o que conhecemos por “arte brasileira”, que há muito deixou de ser homogênea.

Lembro-me de ter ouvido Jorge Amado dizer numa gravação que o escritor, para saber o que está fazendo, precisa considerar o ambiente e a realidade em que ele está situado. Para mim, certamente seria dispendioso ter de escrever num cenário estranho e num ambiente o qual eu desconheço, por isso, os dialetos, os ditados populares, as frutas, as árvores, a geografia, o clima, a estrutura política-social-econômica, os nomes… tudo teria que me soar familiar, seguro, possível; brasileiro. Nesse quesito estou sendo feliz.

O início da minha “jornada anglo-saxônica” é o início da jornada do meu país: agrário, mas também rural; arcaico, mas também moderno; selvagem, mas também civilizado; gigante, mas também disperso; pobre, mas também rico; doente, mas também poderoso. Enquanto a fantasia épica tradicional se concentra numa estrutura medieval e numa narrativa cheia de mitos e lendas, aquela que construí está mais para uma fantasia épica moderna, concentrada numa estrutura oitocentista em que o discurso científico-racional já é predominante, embora conviva com a crendice popular.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ninguém inventa a roda, mas cada um pode utilizá-la para diversos fins: se transportar, moer trigo, fazer uma távola redonda, sair rolando, etc., etc., etc. Honestamente, para mim é bastante importante que o leitor se sinta familiarizado com o livro O Império da Flor. Embora seja uma obra ficcional, não lhe será estranha; familiarizar-se com uma obra de fantasia não medieval será uma experiência literária saborosa, ainda mais se ela estiver temperada com algumas especiarias que só encontramos por aqui. Sou suspeito para falar da interação entre os elementos tradicionais de uma fantasia épica com elementos modernos, uma vez que julgo ter sido feliz nesse tipo de empenho. A França d’Os Miseráveis, de Victor Hugo, é a França que existiu, mas com elementos românticos; a Rússia de Guerra e Paz, de Liev Tolstói, é a Rússia que existiu, mas com elementos épicos históricos; o Condado d’Os Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, é a Inglaterra rural, mas com elementos fantásticos; a Arcadênsia, d’O Império da Flor, de minha autoria, é um país com diversas fontes de inspiração, mas é do Brasil, a minha casa, que tiro os elementos mais fortes para elaborá-la.

Deixo, portanto, as minhas boas-vindas àqueles que se aventurarão nessa obra. A familiaridade, penso, poderá ser algo novo, tendo em vista a hegemonia dos recursos estrangeiros (mas, que ainda assim, são de elaboração da humanidade). Arcadênsia lhe espera, como sempre esperará os bons e velhos aventureiros da fantasia. Sou um aventureiro também, e por isso, decidi escrever uma nova aventura.

Vamos acompanhar os navios que partem de Arcadênsia!

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