A virtuosa Casa Imperial de Dorinsor – por Idevran Florduart

“A força que é exercida sobre todo homem virtuoso é, e sempre será, a força da história.” (Átero Corteu)
Por Idevran Florduart.

Os Dorinsor sempre souberam que havia algo de diferente entre eles e as outras casas nobres de Arcadênsia, bem como entre eles e as sete Casas Imperiais que os sucederam. Trezentos anos desde a sua chegada ao Trono da Flor, o reinado dos Dorinsor mostrou ser o mais próspero de toda a história deste país, apesar dos infortúnios que naturalmente se desenvolveram em Arcadênsia por motivos outros.

Os mais importantes ancestrais dos Dorinsor surgiram entre 360 e 365 na ilha que hoje possui o mesmo nome, a leste da Península do Pien, no meio do Oceano Adriacélico. Naquele tempo, apenas quatro  famílias viviam na ilha: os Dorinas, os Potanqui, os Jacedote (já extintos) e os Soor. A única família com título nobiliárquico na ilha, os Dorinas (título de Barão), uniram-se aos Soor em 412 d.S., num casamento que até hoje é comemorado ali como O Dia de Dorinsor. Ambas as famílias, criadoras de ovelhas, transformaram a pequena ínsula num próspero porto para comércio de lã e de peixes, fundando em  456, a partir da ação do patriarca Maliseu Dorinas-Soor (3º Barão da Ilha de Iucalí — como a ínsula era conhecida até então), a Guilda da Lã e do Pescado. Comercialmente, Iucalí prosperou.

2376---base_image.1428059105.jpgA Dinastia de Tiel teve fim em 469, quando o Violti Erigor I, o Leal, morreu sem  deixar descendência. Para a escolha de um novo Imperador, todo o Pariato do Império foi convocado, como de costume, mas um nome de família nobre para ocupar o egrégio posto não foi escolhido na ocasião. Os Turlinsor, há 140 longe do Trono da Flor, armaram uma conspiração e conseguiram se eleger poucos meses depois. Utilizando-se dos aliados mais ricos, dentre eles o Barão Maliseu de Dorinas-Soor, Edaas Esplendis de Turlinsor conseguiu comprar dois terços da fidalguia (o necessário para ser consagrado Imperador de Toda a Arcadênsia). Com metais preciosos e toda sorte de bens (como a lã produzida em Iucalí) e com a promessa de dividir o poder, as riquezas e os futuros espólios com os seus eleitores, o agora Imperador Edaas V Turlinsor adotou uma política militaresca e baseada na agressão. Invadiu os vizinhos do norte e do oeste e pilhou Biel em 473 para pagar os fidalgos que o elegeram. Nesse ano, o Barão Maliseu foi agraciado com o título de Marquês, e sua família, Dorinas-Soor, passou a ser reconhecida como Dorinsor (muitos dizem que o Imperador Edaas V tinha um grave problema de dicção, e no momento em que chamou o Barão Maliseu para a oferta do novo título, pronunciou “Dorinsor” em vez de “Dorinas-Soor“; a família, então, adotou a nova pronúncia, considerando a filosofia da Infalibilidade Imperial, ou seja, “o Imperador nunca erra”).

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Mapa com a representação moderna e a localização do continente arcadensita e da Ilha de Dorinsor.

Os marqueses de Dorinsor, ao passar o tempo, deram à ilha o seu próprio nome. O pequeno rochedo com pastos e um porto tornou-se a base da cada vez mais rica  e poderosa família, que apesar de distante da costa, ainda conseguia influenciar a política de Arcafiel junto à aliança que tinha com os Turlinsor. Os Dorinsor ajudaram nos esforços de guerra contra a pirataria no Mar Fiel e foram capazes de defender a costa Leste contra duas investidas barvaravianas que viam do Toreno (no biênio 542-543). No Reinado de Duriel IV Turlinsor, os Dorinsor receberam o título de Duques de Dorinsor; mas com a subida da Casa de Runeburgo em 655 (estes, inimigos antigos dos Turlinsor e da fidalguia sulista), a família foi rebaixada ao marquesado novamente.

Hetovil Brilhante de Dorinsor herdou o comando da ilha em 699, sucedendo o pai, Heto Luminoso de Dorinsor. A linhagem dos “Dorinsor Iluminados” começou daí. A26700233294_1afe0076b0_h Casa de Runeburgo caiu em 712 e o Rorzaularme subiram ao Trono da Flor com Luderico I, o Imperador-Sol. Uma nova e duradoura aliança se iniciou entre esses homens de brilho, e os Dorinsor foram exclusivamente beneficiados por sua lealdade e receberam do Imperador o comando da Imperial Armada em 746. Com a morte do monarca dez anos mais tarde e a subida do seu filho, Luderico II, o Egoísta, os Dorinsor levaram um golpe em cheio: o Marquês Vandevil Brilhoso de Dorinsor, Almirante-Mor da Imperial Armada, foi morto com outros trezentos de militares numa ação que ficou conhecida como Genocídio do Auto, em 781, a mando do Imperador. Com o assassínio de boa parte dos nobres militares, Luderico II deu continuidade ao projeto absolutista iniciado pelo pai. Os Dorinsor, expurgados da Corte, retornam à exportação de lã e à pesca.

Portuguese_Carracks_off_a_Rocky_Coast.pngAnos mais tarde, com a subida de Manduel I Badorgal ao poder, em 822, os Dorinsor retornaram a Arcafiel. Dessa vez, na qualidade de Capitães da Armada, colocaram-se à disposição do Imperador Beligerante. Nas três campanhas promovidas por ele contra os países ocidentais do Toreno, dentre eles Lovagkia, os Dorinsor conseguiram vencer todas as batalhas as quais participaram (a mais famosa delas, a Batalha de Dourocanal, nas Ilhas Douvelmas, no Basfaal). Com a reconhecida bravura, o Marquês Vitalício Prateado Dorinsor devolveu à sua família o título de Almirante-Mor da Imperial Armada, em 841. No entanto, a tradição de chefes da Armada acabou entre a família quando ela começou a perder suas riquezas ao longo de todo o nono século. A lã da ilha não era mais um produto essencial e a desenvoltura dos nortistas na pesca em alto-mar extraiu dos Dorinsor suas únicas fontes de riqueza. A nobreza da família, contudo, permaneceu.

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Os Dorinsor permaneceram à parte da Corte durante cento e vinte anos, até serem chamados por Constantino I Badorgal, em 995, para pôr fim às Revoltas Ocidentais que já duravam cinco anos, na Costa Oeste. O Reino da Esbrausânia, cujo rei era o próprio Constantino I, foi abolido em 1001, e a cidade de Esbraus perdeu a sua qualidade autônoma. As províncias e os nobres do oeste vingaram-se dois anos depois, quando Aramundo I Badorgal teve o seu reinado deslegitimado um dia após a própria coroação, em 29 de Dezembro de 1003. O peso do remorso da nobreza da Costa Ocidental foi determinante para a queda dos Badorgal do Trono da Flor.

Após dez dias da queda dos Badorgal, a nobreza em reunião escolheu Sor Brunjano, da Casa de Nagarbe-Uramir, senhor de Talonha, no oeste, como Imperador de Toda a Arcadênsia, em 9 de Janeiro de 1004. Sua coroação ocorreu um dia depois. Tornando-se Brunjano I Nagarbe-Uramir, O Polido, o novo Violti sufocou a Revolução Reidorormeana de 1025, embora tivesse concedido autonomia política ao Ducado. Uniu-se à nobreza da Banda Oriental, incluindo os Dorinsor, e reuniu-se com eles para a assinatura do Novo Pacto de União (até hoje vigente). Com a subida de Baverlano I, o Engenheiro,  em 1043, as províncias portuárias de Arcadênsia experimentaram uma rápida modernização, e os Dorinsor, agora se beneficiando de uma nova condição comercial (investindo em companhias de exportação de especiarias do Mar Fiel para o Toreno), puderam, através de sucessivos casamentos entre as famílias ricas do Sul, estabelecer as condições para retornarem a Arcafiel em 1066.0330fc34f092619aac081ac8704abb7b.jpg

Foi nesta data que ocorreu sua primeira chegada à Corte, agora com as riquezas e o prestígio recuperados. Devido ao casamento entre o Príncipe Daurno Samelião de Nagarbe-Uramir, filho mais velho do Imperador Baverlano I, com a Marquesa Zaine Janaira de Dorinsor, filha do Marquês Joverino Lustroso Dorinsor, a família da ilha do sul retorna à Corte. Com a morte do Imperador Baverlano I em maio de 1089, os Dorinsor passaram a ter, pela primeira vez, uma Consorte em Arcafiel, esposa do Imperador de Toda a Arcadênsia. Mas sete anos após a sua subida ao trono, Daurno I Nagarbe-Uramir, o Jovem, faleceu sem deixar herdeiros, em 1096. A Imperatriz Zaine retornou à ilha de Dorinsor, onde morreria viúva e de velhice.

Ruvendor I, o Execrado, irmão de Daurno I e filho de Baverlano I, iniciou já no ano da sua coroação um reinado de terror. Sitiou Arcafiel com a ajuda da Casta Militar e tomou para si o poder absoluto, em 1097. Os militares e a nobreza do Oeste demoraram a reagir, e por isso, apenas em 1109, estourou A Novembrada, o primeiro levante contra Ruvendor I. Em Dezembro se iniciou A Revolução do Verão Vermelho. O Imperador resistiu até 13 de março de 1110, quando ele e toda a sua família foram mortos pela população arcafielense antes mesmo da marcha das tropas dos Senhores da Guerra do Oeste pela capital. Naqueles meses de guerra civil, Evassália, no norte, tornou-se independente, e o Reino de Librasaas, no Surrinsor, repatriou Biel.

le_compromis_des_nobles_en_1566-edouard_de_biefve-mba_lyon-2014As disputas entre as famílias nobres do leste com as do oeste se intensificaram ao longo do mês de março daquele ano, quando os Pariatos se reuniram para eleger um novo Imperador e uma nova casa reinante. Decidiram pelo retorno dos Rorzaularme, exilados na Lovagkia desde a queda de Luderico III em 816. Com o impedimento da Casta Militar pela subida dessa família ao trono (embebida com o remorso pelo Genocídio do Auto), os oficiais militares sugeriram os Dorinsor devido à sua longa tradição de lealdade e honradez aos Imperadores de Arcadênsia. Os Eimagrau, Duques do Reidororme durante séculos, resistiram à proposta e decidiram não reconhecer a consagração do Marquês Atelstano Alvo Dorinsor como Imperador de Toda a Arcadênsia. Então consagrado Violti em 10 de Maio de 1110, tornou-se Atelstano V Dorinsor, o Camponês, e iniciou um reinado de longos 49 anos.

Os três soberanos que sucederam ao primeiro Dorinsor no trono conseguiram desenvolver a economia e estabilizar a política. As primeiras aeronaves autônomas foram inventadas durante o reinado de Manduel II, o Caridoso, com o incentivo deste em criar a Corporação Lunité. Mas o reinado do seu filho, Joover I, manchou para sempre o longínquo prestígio dessa família sulista. Herdando o trono do seu avô, Manduel II, Joover I foi coroado Imperador aos sete anos de idade, em agosto de 1200. Responsável pela pior revolta popular desde o Regicídio do Verão Vermelho, mergulhou o Império em duas guerras: a primeira contra Rozenfor em 1207 e a segunda contra Condória em 1209, ambas perdidas. Nesse meio tempo, a Esbrausânia e o Reidororme se rebelaram contra o Poder Central e proclamaram sua independência em Abril de 1208 e Janeiro de 1209, respectivamente. Ambas as províncias foram retomadas em Janeiro de 1210, mas uma revolta promovida pelos militares fez Arcafiel ser mergulhada numa revolução em Abril do mesmo ano. Momentos antes do assalto ao Palácio de Turlinsor pelos militares, Joover I, o Execrado, suicidou-se aos 17 anos. Apesar do Imperador suicida não ter deixado herdeiros, a numerosa linhagem dos Dorinsor continuou no Trono da Flor com a coroação de Atelstano VI, o Peregrino.

Foram quatro os Imperadores desde o Peregrino até Galduíno I Dorinsor, o Imperador de Arcadênsia de 1381 até os dias atuais. Muito do crescimento do Império nesses quase um século e meio foi devido ao forte senso de promoção ao desenvolvimento econômico enraizado nas tradições da família. Devido à sua admiração pelo mercado, os Dorinsor passaram a ser chamados de “Imperadores Burgueses”, embora tivessem abandonado todos os seus portos, companhias de exportação e navios assim que subiram ao Trono da Flor. Da burguesia os Dorinsor não tiraram nada mais do que alguma simpatia, mesmo a própria ascensão burguesa tivesse dependido, em grande medida, dos esforços dos Imperadores Ilustrados em desenvolver economicamente todo o país.

Dos nove Imperadores Dorinsor até Galduíno I, apenas um não recebeu um cognome que significasse algo altivo, virtuoso, esplendoroso. Os reinados dos Imperadores da Dinastia Dorinsor foram longos e prósperos, e sequer uma guerra foi perdida por eles. As matrizes para a revolta vieram, contudo, da própria disseminação do espírito diplomático, democrático e libertário dessa virtuosa família. Ninguém nunca duvidou até hoje que sem os Dorinsor não haveria Arcadênsia moderna, e sem Arcadênsia moderna não haveria Império. Se a instabilidade dos nossos nobres e dos nossos Imperadores determinasse as nossas condições de vida, continuaríamos presos aos nossos senhores feudais ou aos senhores de escravos, como boa parte das pessoas ao redor do mundo ainda vivem (com exceção, claro, da gente que vive na maioria dos países no Toreno). As condições invejáveis de vida do arcadensita médio são comparáveis às condições de vida do mais poderoso rei do Extremo Ocidente, e o nosso cidadão tem mais regalias civis do que qualquer fidalgo do Extremo Oriente. Seja nos desertos desta banda do mundo ou nas montanhas daquela outra banda, a verdade é una: nunca antes uma só Dinastia ofereceu tanto a um país num curto período de tempo quanto os Dorinsor. Estão sendo quase exatamente trezentos anos de crescimento até o infinito. Que o infinito dure muitos anos.

Texto extraído do Dicionário da História (pp. 306, seção D — edição da revista O Expresso Histórico), lançado e impresso pela FCDF do Fórum Imperial de Trienhoste. Escrito por Idevran Florduart em 11/06/1408.
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