Os Arcadeus e os Arcafeus – por Idevran Florduart

Um artigo sobre a história desses dois povos.

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“A história de um povo vivo é contada por aqueles que querem torná-lo maldito ou divino. A história de um povo morto é contada por aqueles que querem que sintamos pena ou saudade.” (Magal Cervos)
Por Idevran Florduart.

Nem todo arcadeu é arcafeu, mas todo arcafeu é arcadeu.” Nós aprendemos a decorar essa frase na escola, quando somos apresentados às primeiras aulas de História. Nossos professores, no entanto, geralmente não nos dizem muito sobre as diferenças enormes que existem entre esses dois grupos que, marcados por incontáveis êxodos, guerras, genocídios e expurgos, aprenderam, cada qual ao seu modo, a transformar o velho continente de savanas, planaltos frios, rios nervosos, montanhas de pedras peladas e inóspitas florestas tropicais. Arcadeus e arcafeus, no entanto, nunca estiveram convencidos de que a austeridade do continente arcadensita pudesse dar lugar a algum tipo de paz.

Genericamente, os arcadeus constituem um conglomerado de vinte e três nações (dentre elas estão os arcafeus), cujo ancestral comum é o povo arcaio, originário do Surrinsor, que migrou para o continente arcadensita há quinze ou dezoito mil anos (esse intervalo de três mil anos em tal estimativa até hoje é motivo de debate). Os arcaios eram descendentes de surrinsorianos do sul, enquanto que os povos negróides surrinsorianos do norte, originários da Savana Central Jacasliana, deram origem aos fergorianos, jusfalaritas, jacaslianos, parte dos oscartianos e dos gurmacenos. Estes cinco povos, por seu turno, formam quase duas dúzias de nações que se firmaram na região entre a Floresta do Brasolgar, no norte do Surrinsor, até as Terras Altas Jusfânicas, no extremo nordeste desse grande continente, bem como nas Grandes Ínsulas no mar entre os continentes arcadensita e surrinsoriano. Todavia, é comprovado que pouco tempo após a chegada dos arcaios ao despovoado continente arcadensita (que, aliás, deram nome a uma flor típica daqui, a pelo menos três países que surgiram no leste e ao próprio continente) a partir do Estreito de Biel, uma linhagem negróide dos oscartianos desceu pelas Grandes Ínsulas, a norte, e desembarcou na costa do que hoje conhecemos como Floresta da Grã-Oscártia (esse povo também deu nome a essa porção do continente). Aliás, a quesito de curiosidade, arcaia, na língua fielênica antiga, significava “povo do domínio” ou “da terra”, enquanto oscartí, na mesma língua, significava “povo da terra das árvores”; e são esses dois povos distintos  (arcaios e oscartianos) com significados semelhantes que deram origem a um só povo: os arcadeus.

arcadeus-e-arcafeus
Os arcafeus, por seu turno, são descendentes de uma linhagem de arcaios que atravessou o continente e colonizou o Planalto de Arcafiel. Aqui estabeleceram a primeira colônia há pelo menos 11 mil anos. Os arcafeus são uma nação, e por isso seu espírito de unidade e pertença é muito mais forte, suficiente para constituir língua, cultura e sistema político próprios. As primeiras tribos erguidas nesse Planalto migraram relativamente cedo para outras regiões mais férteis, como o estuário do Sumé, a sul; os charcos da Tuiolândia e margens do Lago do Brado, ambos a norte; as ilhas da Baía das Divindades, a nordeste e de volta às margens do Sumé, a oeste. Nessas condições, a nação dos arcafeus, já configurada com um forte espírito unitário, tornou a Banda Oriental do continente arcadensita num próspero lugar para tribos guerreiras, para o monoteísmo e para a tradição da navegação na Baía das Divindades. A ligação dos povos nas ilhas da Baía das Divindades com os povos estabelecidos na costa do Mar Fiel também foi predicativo para um desenvolvimento rápido das técnicas de pesca e cabotagem. Por dominar e aprimorar as técnicas de navegação, os arcafeus puderam subir o Rio Sumé pela primeira vez há 7 mil anos, bem como contornar a Península do Pien há mais ou menos 6 mil. Enquanto isso, as nações arcadéias nas entranhas do continente continuaram presas à cultura da caça, que tornou limitada a variedade de alimentos. Assim condenou esses grupos à vida poligâmica e nômade e presa às tecnologias rudimentares. Os arcafeus, por seu turno, graças ao desenvolvimento tecnológico e à abundância de comida, ergueram as primeiras cidades do continente e formaram os primeiros traços de um Estado.

Há pelo menos 5 mil anos os arcafeus ergueram cidades-estado nos mesmos lugares em que hoje estão erguidas Arcafiel, Broganforte e Belí-de-Bermanha. Enquanto isso, apenas duas nações arcadéias, os outrodianos e os magraus, repetiram o mesmo feito em tempo semelhante. Os oscartianos, no norte, ergueram a cidade que ainda hoje se chama Braazen, na Península da Ponta, há 4,5 mil anos, mas abandonaram-na misteriosamente por volta de 1050 a.S.

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O culto a Fiel, oriundo do monoteísmo conhecido dos arcaios (que foi, aliás, um diferencial entre todos os povos surrinsorianos), desenvolveu-se com maior força na nação arcaféia, enquanto que o culto a Barã, divindade equivalente para algumas nações arcadéias do centro, significou a criação de uma nova fé, diferente daquela que os arcafeus seguiam.

Aliás, a primeira guerra que separou pela primeira vez os arcafeus foi causada pelo confronto de fés: há 4,5 mil anos o fielenismo, ou culto a Fiel, surgiu entre as tribos estabelecidas do Planalto de Arcafiel. As tribos do norte, do charco e da floresta, rapidamente se converteram à nova fé, enquanto que as tribos do sul, resistindo à nova fé, sacrificou o Patriarca fielênico Daumênio II num culto a Sabar, há 4 mil anos, para a fúria das tribos do norte e do Planalto. A Grande Contenda separou os arcafeus e a linhagem broganfortiana, do sul, perdeu, sendo obrigada se converter finalmente ao fielenismo. Assim o culto a Fiel tornou a substância una entre os arcafeus de todas as regiões da Banda Ocidental, e permitiu que a escatologia militarista das tribos do Planalto desse aos Profetas Ungidos a qualidade de coroar os primeiros reis, os Violtis. Arcafiélia, a cidade  arcaféia do Planalto, e Broganfórtia, a cidade arcaféia do Estuário, fundaram reinos próprios e uniram-se apenas em 2487 a.S, no Ato de União. A partir disso a história é conhecida: quatro expansões Arcadênsia a dentro num período de 600 anos transformaram o reino da Arcafiélia-Broganfórtia no primeiro grande Estado militar da história, subjugando as demais nações arcadéias e alguns oscartianos por vários milênios.

Apesar de seguirem os rudimentos da mesma fé monoteísta dos arcaios, os arcafeus fielênicos foram a primeira nação a se afastar das metanarrativas sobrenaturais, dando espaço a uma nova perspectiva de mundo baseada na escatologia militarista-religiosa. Os Patriarcas da Fé eram especialistas tanto em decifrar os mistérios do espírito divino quanto na arte da guerra. Deram ao Estado arcafiélio-broganfortiano a mentalidade austera, ousada, expansionista e sagrada, messiânica por natureza, que anuncia a vitória do povo arcafeu sobre os inimigos que seguem fés diferentes. Isso tudo ainda sobrevive na filosofia política da Infalibilidade Imperial dos Violtis modernos, que são, teologicamente falando, profetas-patriarcas-guerreiros (dotados de fé, autoridade e força, respectivamente).

Esse espírito expansionista foi acompanhado por uma promessa: a de que as nações arcadéias seriam, mais cedo ou mais tarde, parte integrante de uma só nação, a arcaféia. O Império Tuiolês, que sucedeu Arcafiélia-Broganfórtia e Arcafiélia em 1719 a.S., levou isso muito além, dobrando a perspectiva da promessa para os seus irmãos, os surrinsorianos. Nessa expansão tuiolesa sobre o continente vizinho do oeste, o fielenismo serviu como aparato de controle via culpa, ao passo que os militares, também dotados de uma sacralidade espiritual, exerceram a coerção necessária para que os povos dominados se convertessem. Os rozenforitas, contudo, foram a última nação a ser convertida no Surrinsor e a primeira a se rebelar contra os arcafeus tuioleses em 180 a.S., culminando na expulsão dos tuioleses do continente em 183 a.S. Nos quase dois séculos seguintes, a Queda de Tuiol foi iminente.

O espírito do fielenismo só foi renovado quando Sulier instaurou a união de todas as nações arcadéias sob o Império Arcadensita, há quase 1400 anos. Arcadeus, arcafeus e oscartianos tornaram-se, logo, os três grandes troncos nacionais do novo Império com fé restaurada, tornando e considerando os arcadeus como uma só nação. Deste modo, magraus e esbrausianos, por exemplo, foram, para essa nova conjectura, considerados como integrantes de uma só nação; o que é hoje, certamente, um delírio, devido às diferenças abissais encontradas entre essas duas culturas. Apesar disso tudo, é respeitável o movimento revisionista que busca pulverizar novamente os arcadeus em vinte e três nações integrantes. Existe, também, o movimento que busca dar espaço ao movimento de separar os arcafeus em três nações distintas: broganfortianos, tuioleses e arcafiélios, tendo em vista a diferença desenvolvida entre eles durante esses 11 mil anos de história.

Portanto, todo todos os arcadeus são… arcadeus! Enquanto os arcafeus, embora tenham sugerido ser uma nação à parte, continuam a ser, no fundo, arcadeus, só que do leste.

Artigo extraído da coleção A Enciclopédia dos Povos, fragmento escrito por Idevran Florduart em 23/12/1386, publicado em 10/02/1387.

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