A Profecia “Arcadênsia” – por Tuniol Elbencão

padme_arcadensis_negravelhoadagioOs homens escrevem sua própria história, mas por cima da tinta seca do passado. Por isso, não podem escrever o que querem, não segundo as suas próprias vontades. Nenhum homem é primaz naquilo o que ele faz,  e as condições para suas próprias ações estão escritas e dadas pelo passado.” (Cário Vaximeu, em Da Estrutura)
Por Tuniol Elbencão

São muitos os personagens que conheci ao escrever esta crônica, mas aqueles que estão imergidos dentro d’O Império da Flor são, contudo, os mais importantes de toda a história deste mundo. Eles habitam toda a Arcadênsia, de Esbraus ao Pienol, de Movrafiel à Comântia. Mas o que os liga dentro desse vasto território é o medo daquilo que o futuro lhes guarda. O passado, no entanto, é mais forte do que eles pensam, e no jogo do tempo, os dados já estão lançados. A posição de cada um deles no tabuleiro desse jogo antigo já está determinada, mas cabe a cada um, a partir dos sentimentos e da razão, conduzir as peças à vitória ou à derrota… Enfim, isso o futuro dirá. Por isso, torna-se necessário fazermos uma pequena introdução sobre esta história, por mim contada, embora com todas as limitações com a qual um apaixonado por essa disciplina está determinado a conviver. Falaremos, nas próximas linhas, sobre O Império da Flor — Arcadênsia.

SOBRE O PASSADO

Zafirra - tuiol.PNGMil e quatrocentos anos após a sua fundação por Saier Tigre Sulier, o Império de Arcadênsia guardou inúmeras vitórias e pouquíssimas derrotas. Herdou do Império ao qual sucedera, Tuiol, a máquina de guerra, a burocracia, a hierarquia social e as incalculáveis riquezas. O maior Império já visto na história dos homens neste planeta, o Império Tuiolês, pilhou as riquezas de dois continentes inteiros e guardou para o domínio sucessor, Arcadênsia, as condições para a sua vitória. Já em 135 d.S. (depois de Sulier — portanto, 135 anos após a queda do Império Tuiolês e da arrasadora guerra civil que se instaurou no país, liderada por Tigre Sulier), Arcadênsia já era a ponta de lança dos Estados poderosos do mundo, e suas expedições mundo a fora só garantiram mais prestígio, riquezas e poder. Desenvolveu-se tão rapidamente que o mundo medieval em torno viu brilhar uma nação ostentando tecnologias nunca antes vistas, e um povo cada vez mais esclarecido que superou as metanarrativas e os mitos de outrora.

Arcadensis (02).PNGMas a sorte mudou para essa pátria em meados de 1400, quando os 30 anos de reinado de paz do Violti Galduíno transformaram a sedenta máquina de guerra arcadensita num sistema vulnerável, pesado e custoso de ser mantido do mesmo tamanho de séculos anteriores. Continuou hegemônico, é verdade, mas isto lhe custou caro: a antipatia de um punhado de nações comprometeu Arcadênsia, já abalada internamente; e ameaçá-los de guerra, apesar de tentador, poderia apenas piorar as coisas. Restou a parcimônia, a última qualidade do arcadensita médio.

SOBRE O PRESENTE

A implicação das ameaças, do delírio civil, da contestação pública contra a autoridade aristocrática e das fronteiras em ebulição moldaram os homens e mulheres do décimo quatro século. A nobreza já flerta com a burguesia republicana e tudo indica que os militares estão conspirando contra a Monarquia da Casa de Dorinsor. Nunca as incertezas sobre o futuro ganharam corpo quanto agora, apesar de o passado, esquecido pela maioria, continuar a interferir no presente. E mesmo com a popularidade do Imperador Galduíno I, o herdeiro ao Trono, Kaal Dorinsor, Príncipe de Arcadênsia, não possui uma terça parte do prestígio do pai, tampouco da sua simpatia. Galduíno e seus conselheiros já aceitam que Kaal encontrará dificuldades para reinar e isso poderá sepultar de vez a monarquia no continente. O segundo na lista, Estraas, Príncipe de Dorinsor, parcimonioso e erudito, começa a ser visto peço patriarca soberano como uma possibilidade real de salvar o Trono da Flor.

Mesmo assim, insistir que o Império irá cair pode ser um erro… O Marechal Donne Mascaer, alguém que detém a infindável confiança de Sua Majestade, é leal ao Império e a Galduíno, e qualquer levante para tirar o monarca do trono precisará aguentar, antes, a arma, a carga, o fogo e a fúria do velho Marechal do Império.

SOBRE AS FORÇAS OCULTAS QUE NÃO MORRERAM, NEM NUNCA DORMIRAM

Como citei, o projeto de civilização inaugurado por Arcadênsia sepultou de vez as antigas narrativas heroicas, as fantasias e as mitologias que tinham a qualidade de verdade há alguns séculos. O arcadensita cético contemporâneo tem outros assuntos para debater. Mas duas forças muito antigas, mesmo em resquício, continuam a existir, ocultas: o Velho Adágio e o Novo Adágio.

vagvasidir
OS ADÁGIOS IRMÃOS
Na Primeira Chegada dos Homens (3615 a.S.) surgiu o Adágio, e sua formação foi bem-vinda. Mas a Corrupção dos Homens (3518 a.S.) o degenerou, e o Sagrado Verbo se desfez (3496 a.S.). Aproximou-se, daí, a Primeira Era da Dor (3416 a.S.), em que a Savana viu a face oculta d’O Repelido, no corpo de um antigo rei-necromante, Dukaiakor (va’laine!). Devastados pelas seguidas derrotas e perseguições promovidas pelos homens comuns e pelas Hordas Sombrias a serviço de Dukaiakor, os últimos remanescentes encantados da região hoje conhecida como Reidororme, liderados pelo primeiro O Designado, Barsh’arvendil (ma’dom!), ergueram nas margens do Lago Evrajáido, na Cordilheira a poderosa fortaleza de Abáuja, rodeada pelas mais altas montanhas na região conhecida tempos depois como Donerol. Ali criaram a primeira colônia de encantados já no ano de 3348 a.S (4758 anos antes do início da história narrada em O Império da Flor).
Barsh’arvendil e seus seguidores criaram o refúgio ideal para todos os encantados que sofriam perseguições durante aqueles séculos sombrios. Com a queda de Dukaiakor pelas mãos dos Grandes Senhores do Donladôm, a Savana voltou a ser segura e a magia nunca mais prosperou ali, até o décimo quarto século após Sulier…
Em 2373 a.S., quando eclodiu a Primeira Guerra Fielênica no continente, o poderoso reino da Arcafiélia-Broganfórtia invadiu a Península, cercou o Lago Evrajáido e a fortaleza de Abáuja. Um acordo entre homens e encantados deu a paz definitiva a ambos. Em troca das terras e colônias que os magos ainda mantinham por toda a savana, estes receberiam a Cordilheira como seu domínio legítimo. Os magos concordaram em permanecer apenas ali, mas exigiram que os homens não avançassem mais sobre suas novas terras e restringiram a civilização humana a apenas cinco cidades na Península, todas nas regiões costeiras e terras baixas.
Os homens dominaram o continente. Os encantados, no entanto, viram levantar sob seus olhos antigos servos d’O Repelido. Levaram ao início da Guerra que dividiu todos os encantados naquele lugar que fora promessa de paz. A Cordilheira não estava mais segura. Iniciou-se a Primeira Guerra Oculta (855 d.S.). Vaoc liderou as Hordas Sombrias e sugeriu o retorno d’O Repelido; mas sua destruição era anunciada, e Vitalião, o novo O Designado, a pôs em prática. O Novo Adágio surgiu com a graça deste mago e a Cordilheira brilhou mais uma vez, até o dia da Segunda Era da Dor, com o longo descanso do seu Barshaan (1377 d.S.).
O Velho Adágio não morreu, mas o Novo Adágio, agora sem o seu Barshaan Vitalião, permitiu que aquele despertasse. As duas forças antigas e inimigas, em processo de restauração, voltam a abalar a Cordilheira.
novoadagioContudo, todas as coisas se relacionam às Profecias. Mas a ideia messiânica que permeava o Verbo da Cordilheira e seus seguidores era tratada com ceticismo pelos Historiadores do Império, tais como eu… Tudo seria apenas história se não tivesse um pouco de Magia, e isso transformou para sempre como as pessoas passaram a ler os títulos d’Os Contos Verdadeiros de Zafirra, dos quais esta história é extraída.
Uma profecia daquele tempo indicava a volta d’O Designado e d’O Repelido, e a Casa de Dorinsor, reinante em Arcadênsia, talvez tenha recebido um deles.
Extraído do volume de livros Os Contos Verdadeiros de Zafirra, por Tuniol Elbencão.
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